Cadeia do Guanabara: uma exceção à regra


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Por dentro do Guanabara: Um lugar de esperança e paz enquanto a liberdade não chega
Por dentro do Guanabara: Um lugar de esperança e paz enquanto a liberdade não chega
Se alguém me dissesse, anos atrás, que um dia eu conheceria a realidade de um presídio feminino e passaria uma tarde lá, provavelmente receberia como resposta muitas gargalhadas e um “até parece”. Não por preconceito, mas porque não era esse o jornalismo que eu pensava que poderia fazer quando terminei a faculdade. 
 
Há quase dois anos, essa situação já tinha mudado um pouco quando entrei no Comércio e fui colocada como a responsável pelas matérias policiais. Diariamente, eu convivo com todos os tipos de pessoas: vítimas, autores de diversos crimes, famílias afetadas por delitos variados, assassinos, traficantes, ladrões até de galinhas... Mas nunca tinha sido, de fato, colocada diante de tantas pessoas alvos de investigações e à espera de uma condenação - ou absolvição.
 
Mas, na segunda-feira da semana passada, isso mudou de vez. O fotógrafo Divaldo Moreira e eu fomos até a Cadeia Feminina do Jardim Guanabara, que conta com 25 funcionários em suas dependências, e ficamos diante de 75 mulheres que aguardam, ansiosamente, a liberdade. Pudemos conhecer, de perto, durante uma tarde, um pouco da rotina dessas detentas, suas histórias e o que as levou para lá. Fraqueza, necessidade, vontade de entrar no mundo do crime ou falta de estrutura familiar. 
 
Ali, desmistificamos a ideia de que “todos os presos são perigosos”, que muitas pessoas fomentam, e que até mesmo a gente tinha. Confesso que estava preocupada com a forma como seríamos recebidos, já que, fora dali, no calor da ocorrência, a hostilidade é forte diante da imprensa. Ameaças e até agressões não são incomuns. Só que todos esses pensamentos negativos caíram por terra, pelo menos naquela tarde, pois elas foram muito receptivas, ainda que, a princípio, estavam desconfiadas do objetivo da pauta.
 
Assim que expliquei, elas se tranquilizaram. E se abriram mais. Sem coitadismo, tampouco raiva diante de nossa presença. De forma consensual, autorizaram nossa entrada nas celas e que eu pudesse conversar com quem topasse sobre suas vidas. Duas, em especial, foram solícitas e nos acompanharam durante a “visita”. Diana*, 23, e Júlia*, 26, eram só sorrisos, cada vez que eu tentava entender, através de perguntas, o que as motivou a traficarem, fato que resultou em suas detenções.
 
Visitei cela por cela. A cada “oi” tímido que eu dava, recebia um sorriso. Alguns mais nervosos e pouco receptivos, outros mais abertos e acompanhados de um “entra aqui”. Eram jovens, mulheres com cerca de 40 anos, e até mais velhas. Todas com um olhar diferente de qualquer pessoa que nunca esteve em uma cadeia antes. Não é atípico encontrar presas de 20 e 30 anos bonitas, vaidosas e inteligentes, com indícios de que teriam bons futuros se não tivessem sucumbido à atividade criminosa. 
 
Em meio a convites para degustar o que estavam cozinhando, que era desde arroz-doce, até café da tarde e lasanha, em grelhas improvisadas; para assistir ao que estava passando na televisão; ou ouvir o rádio, pude perceber que muitas estão cansadas da rotina. A maioria confessou que não era a primeira vez que estava ali. As outras disseram que nunca mais querem voltar e pretendem dar uma guinada em suas vidas quando “a liberdade cantar”. Que cante. E que elas aprendam a valorizá-la.
 
*nomes modificados para preservar identidade das detentas
 
 
85% das prisões são por tráfico
Oitenta e cinco por cento das 75 presas na Cadeia Feminina do Jardim Guanabara foram para lá pelo crime de tráfico de drogas. De acordo com as próprias, a entrada no crime “é quase inevitável”, já que muitas assumiram o “ponto” de namorados ou maridos, e outras buscaram maneiras mais fáceis de garantir o sustento da família e ter dinheiro para comprar o que sempre quiseram.
 
Os outros 15% correspondem a roubos, homicídios e furtos. As idades das detentas são variadas: até a segunda-feira da semana passada, a mais jovem tinha 18 anos e a mais velha, 50. “A faixa etária principal é de 20 a 30 anos. O envolvimento com o tráfico é algo muito forte e elas são de diversas cidades do Estado de São Paulo. Há detentas de Cajuru, Orlândia, Batatais e várias de Franca”, disse o delegado Eduardo Lopes Bonfim, diretor da Cadeia do Jardim Guanabara.
 
Dividindo o tempo entre jogos de cartas, conversas, programas de televisão e cantoria, as detentas aguardam em suas celas o julgamento ou a transferência para outros presídios femininos. Não é incomum se deparar com a palavra “liberdade” escrita nas paredes das celas e outras mensagens de incentivo para “aguentarem” o período no sistema carcerário.
 
Semanalmente, as detentas recebem três tipos de visitas: de alunos dos cursos de Serviço Social e Direito, da Unesp e de estudantes de Psicologia da Unifran (para acompanhamento psicológico); de familiares, todas as sextas-feiras; e de grupos religiosos aos sábados. 
 
De acordo com o diretor do presídio, espíritas, católicos e evangélicos ficam o dia todo na cadeia, cada um em seu horário, para levar uma palavra de conforto e manter acesa a fé das presas. “Elas aceitam muito bem e gostam de conversar com quem as visita”, disse Bonfim.

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