Com 46 anos de história, a Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) de Franca vive um momento turbulento. Responsável pelo atendimento de aproximadamente 950 pessoas, em três áreas: educação, saúde e assistência social, a instituição pede socorro. Com uma dívida estimada em R$ 750 mil, a Apae fechou 2016 sem pagar o salário de dezembro, a segunda parcela do 13º salário e as férias de todos os seus 252 funcionários, incluindo os professores cedidos pela Prefeitura.
De acordo com a diretoria da entidade, a despesa da Apae Franca é superior à custeada pelos governos Federal, Estadual e Municipal - em média cada aluno custa R$ 1 mil por mês e a associação recebe 60% desse montante - o déficit mensal ultrapassa os R$ 334 mil. Com ações especiais como rifas, festas, resgate de doações da Nota Fiscal Paulista, Empresa Apaixonada e telemarketing, esse saldo negativo cai para R$ 165 mil, mas, ainda assim, até o fim deste ano, pode ultrapassar os R$ 2 milhões.
Além de usuários de Franca, a Apae recebe alunos de 13 cidades da região - Cristais Paulista, Itirapuã, Jeriquara, Patrocínio Paulista, Pedregulho, Restinga, Ribeirão Corrente, Rifaina, São José da Bela Vista e as mineiras Capetinga, Cássia, Claraval e Ibiraci. Dessas, até o ano passado, apenas Rifaina contribuía regularmente para as despesas da instituição.
Depois de três anos afastado da diretoria, ele foi vice-presidente da Apae Franca entre os anos de 2008 e 2013, o empresário Agenor Gado, 64, foi convidado para assumir a presidência da instituição em dezembro passado e, depois de passar pela Apae de Patrocínio Paulista, decidiu aceitar o desafio. Experiente em cargos de diretoria, Gado comandou no ano passado a Lasep (Liga de Assistência Social e Educação Popular), ele retorna e promete a volta dos tradicionais leilões, mais ações de captação, cortes de gastos e, principalmente, uma gestão mais consciente e eficiente.
No ano passado integrantes da atual diretoria da associação haviam adiantado que a situação da Apae não era boa. O senhor assumiu a presidência no dia 2 de janeiro para os próximos 3 anos. Qual foi a situação que encontrou?
Posso afirmar, sem sombra de dúvida, que a Apae vive hoje o seu pior momento. Temos aproximadamente R$ 750 mil em débitos referente a salários, férias e a segunda parcela do 13º de todos os nossos funcionários. É desesperador ser procurado por eles, que não sabem o que fazer e precisam dos seus salários para pagar suas contas. Estamos negociando com a Prefeitura e a Câmara para sanarmos esta dívida. Além disso, todos os meses apresentamos um déficit de aproximadamente R$ 165 mil mensais e estamos buscando ações para não chegarmos no fim deste ano na mesma situação.
Em 2013, após seis anos participando da diretoria da Apae, o senhor concorreu à presidência da instituição na primeira eleição da Apae em 30 anos. Na ocasião, o vencedor foi o outro candidato e agora o senhor retorna sem qualquer eleição, após receber um convite para assumir a função. É possível dizer que a Apae se encontra nesta situação por culpa de uma má administração?
Foi traumática a disputa eleitoral, pois estávamos com um bom trabalho e, naturalmente, tínhamos ideia que continuaria o trabalho. Tínhamos bons projetos e muitos empresários envolvidos com a causa e o trabalho acabou sendo interrompido, por isso foi meio traumático. Porém isso é natural e dessa vez fui convidado e resolvi aceitar. Como não participava da diretoria anterior é difícil dizer se houve má gestão. Acredito que não.
Os municípios da região atendidos pela Apae Franca cooperam de alguma forma com as despesas?
Até 2016 somente Rifaina contribuía regularmente com a instituição. Hoje são atendidas 140 crianças e adolescentes das cidades vizinhas nas áreas da educação, saúde e assistência social. São mais de 30 anos atendendo sem nenhuma contrapartida desses municípios, por isso, devido à situação financeira atual, a Apae buscou junto aos municípios, inclusive com o apoio do Ministério Público, parceria para custear ao menos os 75 alunos atendidos na escola. Estamos em fase de negociação e, pela primeira vez, tomamos uma medida mais drástica. Mas até o momento nenhum termo de acordo foi assinado, então, nenhuma matrícula foi efetivada e assim permanecerá até que cheguemos a um acordo.
Existe risco de que os serviços prestados pela Apae sejam cortados ou que haja redução no quadro de colaboradores?
Apesar da situação ser crítica, como a situação dos salários atrasados, pretendemos trabalhar na manutenção dos serviços já oferecidos. Porém, apesar do nosso desejo, a continuidade depende de negociações com as esferas do governo e o sucesso e continuidade dos projetos de captação já existentes. É preciso ressaltar também que pretendemos organizar mais ações de captação, como a volta do tradicional leilão que não foi realizado pela diretoria anterior, e articular novos projetos ainda para este ano.
Observamos que as entidades em geral têm enfrentado dificuldades para se manter, inclusive com algumas correndo o risco de encerrar os atendimentos. Qual o motivo desta situação tão generalizada?
Muitas entidades, assim como a Apae, trabalham com déficit nos gastos e precisam buscar na sociedade o valor que falta. No caso da nossa instituição, considerando a complexidade do público atendido, para o qual se faz necessária uma equipe multidisciplinar para a prestação de serviço especializado destinado ao usuário e suas famílias, as parcerias com o poder público não são suficientes para custear o valor real do serviço, por isso a contrapartida da entidade torna-se cada vez maior. Nos últimos anos, com a crise econômica enfrentada pelo país, a arrecadação de doações caiu e, por exemplo, com a decisão de não realizar algumas ações - como os leilões - a captação de recursos foi menor. É difícil responder pela diretoria anterior e quais os motivos para a não realização dessas captações, mas sabemos que elas poderiam ter ajudado.
Com a atual situação financeira da entidade e a luta para manter os atendimentos, o que os funcionários e atendidos podem esperar para a Apae neste ano?
Uma gestão mais consciente e eficiente. Queremos economizar em todas as formas possíveis, sem afetar atendimento e acarretar em corte de funcionários, para isso buscamos uma gestão mais profissional possível. Estamos trabalhando e cada setor está buscando alternativas, como economia no consumo de energia, telefone, entre outros, para que juntos possamos prestar o melhor atendimento, sem precisar enfrentar a situação que hoje nos aflige que é não pagar os salários dos funcionários.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.