Crianças poetizam seu entorno e filosofam sobre a realidade o tempo todo. Porque elas vivem de forma mágica e lúdica a infância, que se grafa no latim infantia, e cuja etimologia nos remete para ‘aquele que não tem voz’. Em busca de voz para nomear o que veem pela primeira vez, e de entendimento da realidade que a elas se oferece em estreia, usam seus recursos especiais, que variam muito. Podem lançar mão de metáforas, sem saber que o fazem, e um rio parecerá cobra de vidro, como nos versos de Manuel de Barros, nosso poeta imenso que se recusou a abandonar a meninice. Podem tentar apreender fenômenos naturais de forma desconcertante para adultos e perguntar, por exemplo, “por que não chove para cima?”
Foi pensando nisso, naqueles que ainda não têm uma voz e a estão buscando, que Catherine L’Écuyer escreveu o belo e diferente Educar en el assombro, 16ª edição na Espanha e terceiras publicações na Itália e Coreia. “As crianças se encantam frente a qualquer realidade, pelo mero fato de que ela ‘seja’, e se surpreendem diante de cada uma das modalidades do ‘ser’ ou das leis naturais do nosso mundo”, diz ela logo no começo de seu livro que os brasileiros Angela Cristina Costa Neves e Carlos Alberto Della Paschoa traduziram para a Fons Sapientiae, novo selo editorial da distribuidora Loyola. Em português ficou Educar na Curiosidade. Sim, em espanhol ‘asombro’ é curiosidade.
“O instinto de curiosidade da criança é o que a leva a descobrir o mundo, ele é sua motivação interna e ao adulto deveria caber a criação de um ambiente favorável para este descobrimento”, frisa a educadora de naturalidade canadense e radicada há alguns anos na Espanha. Seu livro, recebido com surpresa e simpatia pelos que se preocupam com a infância neste século XXI de tantas mudanças, e onde o uso excessivo de dispositivos tecnológicos já provoca preocupações e questionamentos, nos aproxima de uma nova teoria de aprendizagem e nasceu de artigo assinado por Catherine e publicado na prestigiosa revista suíça Frontiers in Human Neuroscience.
A proposta é pensar numa educação que aceite a singularidade da criança respeitando sua inocência, atentando para seu ritmo, compreendendo seu senso de mistério e, isso é muito importante, auxiliando na sua busca por beleza. Estar atento ao seu olhar e ao que pulsa por trás de suas palavras já é um primeiro passo para criar oportunidades capazes de ensejar seu desenvolvimento como protagonista de sua existência. O que ela quer nos dizer quando pergunta por que as formigas não param de trabalhar; por que o papel celofane faz barulho; por que a espuma do sabonete gruda na face? Certamente não espera resposta precisa e racional; apenas demonstra espanto diante do mundo que começa a conhecer. Verbalizar com perguntas é seu jeito de se comunicar.
Mas a maioria de nós que já ouvimos indagações parecidas, reagimos com desdém, desconsideramos por várias razões, sendo a mais comum sua falta de utilidade. Vivemos um tempo onde as coisas precisam ser úteis e as atitudes pragmáticas, caso contrário devem ser descartadas ou esquecidas. Que perda de tempo é ater-se a questionamentos infantis que são tão “bobos!” Voltando a Manuel de Barros, impossível não resgatá-lo: “é naquilo que o adulto considera desrazão, absurdo e insensatez na criança que o poeta encontra sabedoria.”
“Quando nossos filhos olham uma fechadura de longe, só podem apreciar um tímido raio de luz. À medida que se aproximam da porta, o que veem cresce, até que, em algum dia, com a testa apoiada na fechadura, estarão contemplando a beleza do universo.
Educar na curiosidade é mais que um livro. É uma filosofia de vida, uma forma de ver o mundo que amplia os horizontes da razão porque se nega a permanecer no minimalismo da vulgaridade.”- escreve Catherine L’Ecuyer.
Nas suas 192 páginas, este livro lançado no final de 2016 repensa a educação à maneira de uma viagem que nasce no interior do ser humano como aventura extraordinária capaz de se sedimentar em pensamento profundo. É obra que deveria estar nas mãos de pais e professores, num país que só vai melhorar de forma progressiva e consistente a partir da educação de nossas crianças. Este é um processo que se consolida a longo prazo, sabemos. Por isso é preciso começar agora, todos nós que nos importamos, a fazer a nossa parte.