Amigos e ‘amigos’


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Na rotina de visitas diárias de fim de dia a varejões da cidade, coisa que nós, homens, nos dispomos a fazer para “auxiliar” em casa, é praxe encontrar amigos, e bons momentos de prosa e lembranças têm lugar. Se nos vemos quase sempre, assuntos do dia imperam. As últimas do futebol quebram resistências. Política, quase sempre encerra o encontro, já que nos descobrimos iguais pagadores dos rombos financeiros causados por aqueles que elegemos. Se não nos vemos há tempos, mas há ligação forte, sempre há o que aprofundar. Pode-se trocar confidências, desabafar. Como diz a sabedoria popular, dois dedos de prosa valem mais que ir ao médico. 
 
Esta semana, eu, que acabo de ser avô da Eduarda, princesinha que minha filha Mariana e meu genro Diego deram a mim e à minha mulher Lourdinha, esbarrei, no estacionamento de um dos empreendimentos dos irmãos Patrocínio, com amigo que, por circunstância de nossa correria profissional, quase sempre nos cumprimentamos à distância. Paramos os carros e, oportunidade sem igual, pusemo-nos a falar sobre netos, ele já experiente na matéria. 
 
O sub-tema, relevantíssimo, surgiu em razão de leitura dele a texto meu, cá neste Comércio, sobre mau uso de aparelhos celulares. Tinha sofrido “na pele” parte do que eu havia considerado, durante visita a seus dois netos, já adolescentes. 
 
Chegou, ganhou um “oi vô” de cada um. Sentaram-se. Ficaram na mesma sala por muitos minutos. Exaltado, disse-me que não mereceu deles, além daqueles “oi vô”, um único gesto, aceno, sorriso, sinal de paixão ou compaixão, amor ou ódio, dedicados, todo o tempo, às suas redes sociais.
 
Levantou-se — disse-me — “puto”. Apontou os netos e lascou: “vou-me embora. Não venho mais vê-los. Se quiserem saber que mim, ou quiserem algo, vão à minha casa, mas aviso: deixem esses aparelhos em casa. Caso contrário, esqueçam-me.”
 
Parece com situação que você, que me lê, também enfrenta? Sei que sim. Acontece em todos os lugares do mundo e há, certamente, poucos avós, ou pais, ou amigos verdadeiros com coragem suficiente para ‘enquadrar’ quem amam, e fazerem pensar no que se perde quando se troca gente de verdade por amigos virtuais.
 
Sabe os “amigos” que você diz que tem em suas redes sociais, e que, afirma, pode contar com eles em caso de necessidade? Apresente-lhes problema grave que esteja vivendo e descubra quantos deles sairão do conforto “da rede” para acudi-lo. Amigos verdadeiros são os que nos amam apesar de nossos defeitos, e se fazem presentes quando todos os “outros amigos” desaparecem.
 
Luiz Neto
Jornalista, mestre cerimonialista, tutor de Expressão Escrita, Fala e Gestual - falecomluizneto@gmail.com

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