'Em 2016, nossa produção encolheu. Voltamos a 2011'


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Neste domingo, começa a maior feira calçadista da América Latina: a Couromoda. Depois de um ano de crise e com baixa na produção, a feira é a esperança dos calçadistas francanos para aquecer as vendas e começar 2017 contratando. 
 
Para o presidente do Sindifranca (Sindicato da Indústria do Calçado de Franca), José Carlos Brigagão, neste ano, a Couromoda ganha importância ainda maior. “Ela é a nossa esperança de um ano melhor ou, pelo menos, menos ruim que 2016.” A expectativa é que os negócios fechados na feira consigam garantir a produção por pelo menos três meses. “É nossa aposta. Vamos torcer e trabalhar para que se concretize”. 
 
No meio da tarde da última sexta-feira, Brigagão deu um tempo nos preparativos da feira para atender o GCN. Ele fez um balanço do setor calçadista em 2016, disse que, aos poucos, a economia está melhorando mas defendeu medidas mais urgentes para ajudar os industriais. 
 
Como foi o ano de 2016 para o setor calçadista de Franca?
Ainda não temos o resultado final porque o governo federal ainda não liberou os números do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) referentes ao mês de dezembro.
 
Mas analisando os dados até novembro podemos dizer que foi um ano muito ruim. Talvez o mais difícil desta última década. Vivemos um ano muito atípico. Enfrentamos toda a indefinição política do País e os reflexos dela na economia. Para se ter ideia da nossa dificuldade, pela sazonalidade da indústria calçadista, normalmente contratamos os demitidos do final do ano nos primeiros três meses do ano seguinte. Mas, em 2016, não conseguimos. Levamos dez meses para recompor todos os demitidos e, pelas nossas projeções, vamos fechar com um número ainda menor de trabalhadores do que em 2015.
 
Em uma entrevista ao ‘Comércio’, no final do ano passado, o senhor havia citado que a produção francana de calçados poderia encolher até 10 milhões de pares em 2016. Esta previsão se confirmou? 
Então, como te disse, ainda não temos como fechar os números exatos porque falta dezembro. Mas se computarmos até novembro e fizermos a projeção, devemos encerrar o ano com menos de 17,7 mil trabalhadores. Nossa produção não ultrapassará os 30 milhões de pares, o que significa que encolhemos. Em 2013, com a economia aquecida, chegamos ao auge. Produzimos naquele ano 39,5 milhões de pares. Em 2016, vamos voltar aos patamares de 2011, com a produção de 30 milhões de pares. É um retrocesso. Encerraremos o ano com mais de 8 mil trabalhadores fora das fábricas. É um peso grande e que, sinceramente, não sei se conseguiremos reverter em 2017. Muito se ouviu no ano passado que a indústria de Franca estava na contramão. Enquanto todo mundo demitia, nós contratávamos. O que esqueceram de dizer é que a massa contratada é a mesma que havia sido demitida em novembro, dezembro de 2015. O que antes fazíamos em três meses, no máximo, no ano passado, fizemos em 10. Em outubro, ainda não tínhamos conseguido recontratar todos os demitidos. 
 
E como está o ânimo dos calçadistas para a Couromoda 2017 depois de resultados tão ruins? 
Até o número de presenças de Franca na feira este ano diminuiu. Ao todo, serão 58 empresas coureiro-calçadistas. No ano passado, eram 68. No estande Moda Franca, perdemos o apoio do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequena Empresa) e levaremos também um número menor de empresas. Serão 28. Estamos enfrentando um período muito complicado no País. Mas estamos otimistas e esperando vender. A Couromoda é a nossa oportunidade de virar o jogo. Por lá, passarão milhares de lojistas, centenas de exportadores, temos que garantir nossas vendas.
 
Em meio a esse cenário de crise, a Couromoda, que sempre foi um termômetro para o setor, ganha uma importância ainda maior. Por quê? 
A Couromoda tem uma grande vantagem em relação a outras feiras do setor: ela acontece logo após o Réveillon, no início do ano, ainda no começo de janeiro. Então, ela é a responsável por garantir a produção do pós-Natal, quando as lojas já desovaram os estoques em liquidações e precisam comprar. As vendas fechadas na feira determinam como será o primeiro trimestre para as indústrias, se iremos ou não contratar, determinam nosso ritmo de produção. Em tempos de crise, em que vender é fundamental, a Couromoda é a oportunidade. A chance de virada. Por ser a maior feira calçadista da América Latina e reunir em um só lugar milhares de lojistas nacionais e de outros países, pode ser nossa salvação. 
 
Então, o senhor acredita que a feira possa salvar o setor ou pelo menos o primeiro semestre?
Salvar o setor, não acredito. Estamos em meio a uma crise. O governo federal até já anunciou algumas mudanças e programas, mas ainda não conseguimos ver seus reflexos na economia. O ritmo está muito devagar. O valor do dólar que poderia alavancar as exportações também vem oscilando muito. Fica até difícil trabalhar com o mercado externo com tanta instabilidade da moeda. Acredito que a feira seja capaz de garantir a produção dos três primeiros meses, mas não chegue ao semestre. Precisamos de mais apoio tanto do governo federal quanto estadual para avançar mais.
 
Então, quais as projeções para o setor calçadista de Franca em 2017?
Ainda é cedo para falarmos em números específicos. Mas não acho que tenhamos um ano muito diferente do que foi 2016. Acredito que manteremos os mesmos patamares de produção e de exportação. Claro que isso tudo se não houver nenhum percalço pelo caminho, como, por exemplo, mais instabilidade política. Minha expectativa é manter a produção em 30 milhões de pares. 
 
Recentemente, o governo Temer anunciou um pacote com uma série de medidas para aquecer a economia. Essas medidas não ajudarão o calçado?
São medidas ainda muito tímidas, que praticamente não têm reflexo para o industrial calçadista. Precisamos de decisões mais efetivas e rápidas, como, por exemplo, uma mini reforma trabalhista que permita a terceirização ou dê às convenções coletivas status de lei. Isso facilitaria imensamente a vida dos calçadistas e aliviaria o peso das contratações e o custo de produção.
 
Outro passo importante seria os governos estadual e federal adotar medidas de apoio ao setor calçadista que anda tão esquecido. Não podemos ser ignorados somos um dos setores que mais empregam no Brasil e movimentamos mais de R$ 20 bilhões, merecíamos um tratamento melhor. 

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