O antigo e o novo


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Ninguém diria que aquilo se transformaria num restaurante: um corredor. O imóvel principal era a loja de antiguidades, que exibia na frente um vidro mostrando belas peças em exposição. Mesmo dentro do restaurante, a gente comia olhando a vitrine lateral da loja. O bom gosto disso é que o restaurante, francês, soube cooptar a seu favor o que inicialmente parecia uma desvantagem. Servia as refeições em pratos individualizados, aliás, toda a louçaria parecia saída da loja de antiguidades. O Café Antique, que nem existe mais, era comandado pelo chef Erick Jacquin, que, hoje, parece confortável na pele de um quase astro.
 
Andávamos pelas ruas de São Paulo comentando a delícia do almoço executivo que era servido naquele lugar, todos concordávamos que, ao que parece, nenhum outro restaurante conseguira almoço tão bom, quando de repente, por detrás de uma cortina de fumaça de uma tabacaria, surge embaciado e avantajado o próprio Erick Jacquin. Rimos, porque coincidências são prazerosas. Continuamos nosso passeio que tinha por intuito encontrar um lugar para almoçarmos no dia 25 de dezembro. Lembrei-me de um cujos copos nas mesas chamara minha atenção: Zucco. Encontramos, abriria dentro de 10 minutos, esperamos. O ambiente, bastante sóbrio, esbanjava elegância, cozinha envidraçada bem ao fundo, pessoal organizado e gentil. 
 
Iniciou-se o espetáculo, os pães do couvert, a manteiga, a pasta de tomate, os grissinis, tudo excelente e, houvesse espaço de sobra, gostaria de comentar cada detalhe. Um, ao menos, preciso dizer: o pão de azeite crocante nas beiradas, macio e perfumado no miolo. Minha irmã e chef não resistiu, correu ao fundo, falou com o chef e conseguiu a receita do pão, mais uma gentileza.
 
A essa altura estávamos animados com o que seguiria, no meu caso, cordeiro com raviole na manteiga e sálvia. O sabor delicado e equilibrado são ótimas lembranças de meu prato. Para além disso, aprendemos uma maneira econômica de servir uma costeleta de cordeiro, na verdade eles retiram toda a carne das costeletas e montam um rocambole, achei a ideia boa, porque evita o desperdício que normalmente acontece com quem não ousa roer ossos à mesa.
 
Mas o destaque ficou por conta do prato de minha irmã, que pediu raviole recheado com camarão - por cima, raspas de limão siciliano e caviar. A delicadeza do sabor do camarão contrastava com a pujança das ovas, o limão a refrescar tudo, o creme de leite fresco selando essa rica união.
 
Fui ao banheiro, o garçom me informou que ficava ao fundo. Fui andando, a cozinha na minha lateral, o banheiro lá no fundo, alguma coisa parecia familiar, voltei para a mesa e perguntei ao garçom o que era antes naquele lugar? “O Café Antique”: claro, como pude esquecer! Não há nada no Zucco que lembre o antigo estabelecimento, outros prédios foram usados na composição da nova casa. Mas certamente há um espírito a exercer a arte culinária à guisa de um Remy, não importando qual seja o Linguini a comandar as panelas.  

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