Tudo aconteceu na velocidade do bicho-preguiça.
Na gênese, foram trocas de olhares e palavras de cortesia. Depois, um roçar de dedos, alguns gestos cúmplices. E tudo era pedra e era tijolo e era cimento e era cal. O primeiro toque de mãos, o primeiro encontro assinalaram o início da construção.
O primeiro beijo, os beijos alteraram fundamentalmente a dinâmica. Depressa a barragem ascendia e acendia o coração que só hibernara, até então, em paisagens de gelo.
Finda a construção, tínhamos o nosso lago imaterial.
As mãos entrelaçadas ergueram a casinha ao pé do morro, junto à margem da represa. Coloridas as paredes de arcos-íris, pintadas de verde-carinho ficaram as copas das árvores.
Certezas aqueceram o interior da mansão.
Lá fora, os anjos chuviscavam no inverno, enquanto beija-flores e canários recreavam no resto do ano.
Um dia, um mancebo desceu a colina, apenas esperou que seu animal matasse a sede no lago, e se foi por entre as árvores.
Ela apenas o observou de longe, mas o olhar que dormitou no estrangeiro fixou-se definitivamente em mim, fazendo brotar o primeiro floco escuro na limpidez do céu.
Daí por diante, minhas palavras perfumadas perderam-lhe o encanto, e cada pétala caída era floco de melancolia juntando-se ao primeiro, aos outros. E, quanto mais minha impotência se fixava naqueles olhos perdidos em outros horizontes, mais o céu se desfazia do branco e do azul.
Uma tarde as nuvens pariram, o lago transbordou, as comportas não suportaram a pressão, abriram alas para a destruição que desceu o morro, foi bailar noutros jardins, no fundo do vale.
Ela me acenara de longe, naquela manhã, antes de sumir-se na estradinha, no meio do arvoredo.
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