Breve morada


| Tempo de leitura: 2 min

A sua casa causava admiração a quem a visitasse, por ter sua personalidade ali estampada. Mulher dinâmica, muito bonita, alegre, com posses, frequente em viagens e reuniões. Era uma pessoa marcante. Sozinha, morava em um condomínio, onde um jardim mimoso e uma graminha fina lhe ofereciam momentos de paz e bem –estar.   Recebia as pessoas com inusitados arranjos florais dispostos na antessala. Orgulhava-se da ordem e arrumação da casa, o dispor dos móveis, dos objetos raros e de alto valor, dos quadros de arte e das tapeçarias exclusivas. No entanto, os ambientes aparentavam simplicidade, fazendo jus à máxima: a simplicidade é a maior sofisticação. 

Os quartos eram ornamentados com cobre-camas e almofadas de estampas suaves. Bibelôs e porta-joias, colecionados em seus passeios, descansavam em cima de móveis personalizados. Os banheiros espaçosos e funcionais completavam a comodidade que a casa lhe trazia, além da beleza e praticidade que a cozinha apresentava. Com vários ajudantes, ela vivia feliz, com o carinho dos filhos, netos e amigos.
 
Nada disso impediu que sua casa fosse desmontada, após sua morte quase repentina! Refeitos do susto, mas não da dor, uma firma foi contratada pela família, para dar destinação a tudo o que havia lá. Muitos foram os interessados e os seus preciosos bens foram a leilão. Os filhos retiraram algumas peças especiais e pessoais para guardarem em consideração à mãe, o que, no futuro, soariam como obsoletos para os netos, dada a rapidez nas mudanças dos costumes. Eles tinham suas próprias casas, bem equipadas e decoradas, que teriam o mesmo fim, rapidamente, devido à brevidade da vida. Em poucos meses, aquela casa colossal foi esvaziada e sua aparência modificada.
 
E sua moradora? Pensamos que podemos controlar nossas vidas. Não acreditamos na nossa finitude, não estamos prontos para deixar esta vida terrena, gostamos tanto de nossos pertences, nossos sonhos, nossas companhias. O que fazer diante da inexorabilidade do tempo?

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários