A Polícia Militar se fez presente em sua vida desde os seus primeiros dias. Além do pai policial, seus tios também foram. No momento de se casar, “elegeu” como mulher uma subtenente da PM de Ribeirão Preto. Marcelo Antônio Jerônimo Melo tem 50 anos de vida, 32 deles dedicados à PM.
Há quase um ano, o tenente-coronel está à frente do 15º Batalhão de Franca e é responsável por 850 policiais que atuam em 23 municípios da região. Antes, passou por São Paulo, Batatais, Sertãozinho e Ribeirão Preto. Atuou também em Jardinópolis, onde dedicou 6 anos à formação de soldados. Foi ainda comandante da Polícia Rodoviária, na base de Araraquara, e cuidou de 202 cidades em uma extensa área, que ia de Campinas até perto da divisa com o Estado do Mato Grosso.
Jerônimo conversou com a reportagem do Comércio no 15º Batalhão. Falou da sua carreira, do desafio de comandar a região de Franca, sobre os índices de criminalidade registrados e a impunidade vista diariamente.
Como o senhor ingressou na carreira militar?
Foi uma inspiração particular pelo fato do meu pai e meus tios serem PMs. Eu e meus amigos estávamos escolhendo qual carreira seguir e resolvi acompanhar os passos de meus familiares. Achei interessante. A possibilidade de cursar uma faculdade em meio à Academia de Barro Branco, o trabalho e a estabilidade na carreira contribuíram. E já são 32 anos como policial.
O senhor passou por diversas cidades ao sair de São Paulo. Entre elas, Jardinópolis, Ribeirão Preto e Araraquara. Na última, foi comandante da Polícia Rodoviária. Como aconteceu esse processo?
Quando fui promovido, não tinha vaga perto de Ribeirão Preto. Teria de ir para São Paulo. Mas a Polícia Rodoviária estava sem tenente-coronel e eu fui colocado lá. Foi uma experiência maravilhosa, pois ali, o foco é trânsito em rodovia e segurança do condutor. É diferente da PM, em que fazemos o trabalho em diversas áreas, incluindo trânsito e patrulhamento.
Durante o período na Polícia Rodoviária, quais foram os maiores desafios? Comandar uma área física muito extensa. Eram 202 municípios, das imediações de Campinas até a divisa do Mato Grosso. Não pude passar por todas as cidades, mas percorri grande parte e aprendi muito. Além disso, na Polícia Rodoviária, há muitos cursos e palestras que permitem uma atualização constante.
Quais as principais diferenças entre comandar a Polícia Rodoviária e a Militar, aqui no 15º Batalhão?
O relacionamento com as forças municipais. Antes, mesmo comandando 202 municípios, era a malha rodoviária. Não havia contato com prefeitos, autoridades e principalmente com a comunidade. Em Franca, há um contato maior com as forças das 23 cidades pertencentes ao batalhão.
O que o senhor percebe nos crimes cometidos em Franca?
São delitos praticados em cidades grandes, mas Franca não é uma cidade perigosa nem violenta.
Então como o senhor encara esses crimes violentos na cidade? O que fazer para melhorar esse cenário?
Os índices reduziram. E são vários fatores envolvidos além do nosso trabalho. Há, principalmente, a identificação do policial militar com a cidade. O PM que trabalha aqui é envolvido. Continua sendo policial depois que sai do serviço e sabe que está trabalhando e zelando por sua família. É muito mais próximo da comunidade e, em razão disso, trabalha mais e ajuda a combater a criminalidade.
Embora o número de assassinatos tenha diminuído em 2016, os furtos e roubos de veículos estão aumentando a cada dia. Há uma preocupação específica da Polícia Militar de Franca em combater esses delitos?
É preocupante, mas os números estão altos em todo o Estado e até País. Em Franca, o problema é maior porque aqui, as pessoas deixam os carros abertos no meio da rua. Em algumas ocasiões, encontramos até a chave no contato. Assim, o número vai aumentar mesmo. Por essa razão, orientamos sempre que tomem mais cuidado com os veículos e tenham dispositivos de segurança instalados.
Em Franca, outro problema é o trânsito. Diariamente, há acidentes, muitos deles gravíssimos, envolvendo mortes. Como é o trabalho da Polícia Militar nesse departamento?
A Polícia Militar tem feito campanhas com a orientação do tenente Régis Mendes, nosso comandante do trânsito, para tentar diminuir os índices. A população precisa acatar essas dicas. Para se ter uma ideia, a maioria das colisões é com motocicletas. Os condutores ficam no meio dos carros, dos dois lados de uma via. Cerca de 90% dos acidentes com motos acontecem por essa razão. Não pode acontecer e isso precisa mudar.
Como o senhor, sendo comandante de 850 policiais militares, enxerga a violência contra policiais no País (foram 477 mortes de policiais em 2016)?
Com tristeza. O policial tem de lembrar que, mesmo de folga, continua sendo reconhecido como tal. Para a criminalidade, ele é uma pedra no caminho. Não pode nunca relaxar e ficar numa posição sem ser de observação e guarda. Algum meliante quer ceifar a vida dele, então é preciso tomar cuidado.
Uma das ferramentas de trabalho que existem no batalhão há pouco mais de um ano é o canil da Polícia Militar. Como os policiais têm recebido o apoio dos cães farejadores Draco e Kong?
O apoio do canil tem sido fundamental. O cachorro identifica tóxicos, explosivos e apoia em controles de distúrbios e abordagens. Hoje, contamos com dois animais e o terceiro está para chegar. A aceitação está excelente. Há até lista de espera de PMs querendo servir no canil.
Como a população pode ajudar a Polícia Militar?
Não conseguimos trabalhar sozinhos. Não temos uma bola de cristal para adivinhar os pontos complicados da cidade. Temos ferramentas de inteligência para constatarmos os problemas de Franca e basearmos nosso patrulhamento, mas o mais importante é a ajuda da população. Um exemplo é o número de registros de boletins de ocorrência nos bairros. Se há a reclamação de que não se vê viatura nas ruas, mas a comunidade acha que não adianta fazer ocorrências de pequenos furtos, roubos e outros crimes, não há como essa mancha criminal aparecer no batalhão e nós verificarmos. A população precisa denunciar e colaborar.
O número de adolescentes envolvidos com o crime só aumenta. Pelo menos um terço dos flagrantes têm menores como infratores da lei. O que fazer?
É resultado de muita impunidade. PM, Polícia Civil, Ministério Público e Poder Judiciário fazem suas partes. Mas não temos ferramentas para coibir a ação desses menores infratores. Quem cria as leis são os legisladores que nós elegemos. Nós usamos uma faca de pão para derrubar uma árvore. Nossa média de prender o mesmo ladrão é de cinco vezes por ano. Isso não está certo. O resultado do trabalho dura pouco tempo e a detenção não tem provocado efeito. Fico um pouco frustrado. É preciso que a população cobre de seus candidatos uma mudança na situação criminal. Com novas leis, nossa atuação ficaria mais fácil.
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