O conheci ainda no tempo em que liderava o Comando Tático da PM correndo atrás de bandidos e cidadãos que derrapavam no cumprimento das leis. Morei em rua próxima da avenida Champagnat, auge do tempo dos barzinhos, tornada ponto de traficantes, drogaditos e casais(?) em busca de fortes emoções.
Espantava a mim e a vizinhos, a habilidade dele. Sempre calmo, dizia que “policial não tem que abusar da farda e do poder, seja lá em que circunstância for; isto sim tem que ser humano, já que lida com transtornados por problemas pessoais, ou incapazes de pensar com a própria cabeça e que se deixam levar por corruptores ou lideranças negativas”.
O estilo diferente daquele PM conquistava. Não à toa galgou postos, ocupou encargos difíceis, conquistou respeito e amizades. Aposentado, foi comandar a Guarda Municipal. Depois, secretaria da Prefeitura. Competente, foram-lhe agregando mais responsabilidades. Nos últimos 12 anos, foi sua a batuta da Guarda Municipal, da segurança institucional da cidade, da Defesa Civil, do trânsito.
Estive com ele, em sua sala de trabalho, semana passada. Hoje estupefato por sua morte em trágico acidente em estrada mineira – também morreram sua mulher, Regina; e Júlia, namorada de seu neto João Victor, que sobreviveu junto da tia Caroline, filha de Buranelli – penso que as duas horas de conversa e troca de confidências que tivemos naquele dia, tenham sido presente final de Deus a nós, que nos acompanhamos e respeitamos por muitos anos.
O sempre objetivo Buranelli estava diferente. Pediu à secretária que anotasse ligações. Em dois momentos seu celular tocou. Numa, repórter deste Comércio pediu-lhe entrevista. Concedeu. Nossos leitores leram sua prestação de contas públicas na Entrevista de Domingo em 24 de dezembro.
A outra ligação, do gabinete do prefeito, produziu-lhe rápida mudança de semblante. Fiz-lhe sinal para se estender, mas ele disse ao interlocutor que ligaria na sequência. Desligou e cravou, sem mais comentários: “É pedido ao qual terei que dizer não, e direi, para cumprir a lei”. Perguntei-lhe se iria, finalmente, passar uns dias em casa de familiar seu no Litoral Norte. Seus olhos brilharam. “Acho que agora, depois de 12 anos sem férias, vai dar.” Passou lá o final do ano e partiu para outra vida.
Que ninguém ouse manchar a memória, crenças e realizações de um homem digno, fazendo humor negro sobre circunstâncias de sua morte e de entes queridos seus. Quem conheceu de perto o tenente Sérgio Buranelli, e as razões humanísticas que o levaram a servir a PM e a comunidade francana, sabe do que falo. Que esteja em paz.
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