2016 na gastronomia


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Tínhamos combinado um local para almoçar naquela manhã de luz azul metálica porque a previsão era mesmo de chuva, a parafernália eletrônica dizia que sim. O combinado foi almoço frugal, pizza, que parece ser mesmo o prato preferido do meu marido. Uma indicação de blog dizia que valia a pena atravessar a velha cidade amuralhada para saborear a melhor pizza, que o ambiente era descontraído, familiar, organizado. Adjetivos que em nada me deixam animada, mas combinado não é caro, e a vida é um toma lá da cá. O endereço, lembro-me bem era: Calle Sargento Mayor, 6-21. Depois de uma caminhada plana, que me permitia as sandálias baixas, roupas leves e brancas, bolsa hippie atravessada pelos ombros, cabelos soltos, eu ia feliz e conformado com meu destino.
 
Mas eis que encontramos nosso destino: uma parede branca alta, indicava um pé direito alto, um vaso enorme de cimento com uma costela-de-adão verde intenso e, o melhor, uma porta de madeira com botões e aldraba de ferro forjado, sustentavam a plaqueta com o número 21 daquela rua. Fiquei curiosa: uma pizzaria?
 
Não, não era mais uma pizzaria, o prédio se transformara num hotel butique, bastante elegante. A atendente, muito simpática, nos informou que lá dentro um restaurante italiano, bem-conceituado, estava aberto e havia dois lugares a nossa espera. Ah! Como é bela a vida! Havia uma pizzaria, outra, naquela esquina, fiz menção educada de irmos almoçar lá. Mas ainda bem, é para essas coisas que também serve o amor, meu marido sentiu minha alma exultar com a possibilidade de um outro tipo de comida italiana.
 
O prato que pedi e comi foi o ravióli Amatriciana. A origem do prato é a cidade de Amatrice, vizinha a Roma, que até hoje organiza um festival gastronômico, cuja estrela principal continua sendo o mundialmente famoso prato all’amatriciana. Trata-se de uma massa, em Amatrice, ela será um bucatini que é nosso velho conhecido espaguete grosso e furado da embalagem roxa de papel. O molho é de tomate, mas leva a deliciosa pancetta, que pode ser substituída pela barriga de porco ou pelas suas bochechas, é o caso da Colômbia, onde elas se chamam guanciale. E igualmente indispensáveis são a pimenta calabresa e o queijo pecorino. 
 
A inovação nesse caso foi a troca do espaguete por uma massa recheada, eu nada sei sobre o prato original, porque não o experimentei, mas esse, servido pelo restaurante Vera, estava primoroso. A atendente, percebendo nossa satisfação com a refeição, veio até nós para dizer que aquele era o melhor prato da casa, que o chef jamais fizera algo tão gostoso, no que assentimos. Pagamos, saímos e o céu era todo azul em desprezo total com a previsão meteorológica, e me senti muito feliz ao constatar mais uma vez que a sorte e o improviso não foram ceifados pelos guias que não atualizam seus endereços, nem pela tecnologia que prevê cem por cento de aguaceiros e trovoadas. Foi o meu melhor de 2016. 
 
Desejo a todos um excelente Natal!

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