'Ela pediu por isso e não teve crueldade', diz assassino


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Não houve um lugar, em toda a cidade, durante a semana, em que não houvesse alguém falando sobre o brutal assassinato da desempregada Ana Cláudia Abib, de 40 anos. Nenhuma pessoa que, ao comentar ou simplesmente ouvir versões do caso, não se chocasse com o fato de que o assassino usou um bisturi para matá-la e, no dia seguinte, decidisse “livrar-se” do corpo, esquartejando a mulher, separando o cadáver por pedaços e depositando sacos de lixo com suas partes no Residencial Amazonas e em um distrito entre Cristais Paulista e Pedregulho.

O encontro dos membros do corpo de Ana Cláudia aconteceu no dia 9 de dezembro, sexta-feira. Uma testemunha entrou em contato com policiais da DIG (Delegacia de Investigações Gerais) e indicou o local, no Residencial Amazonas, onde o pintor Denny de Queiroz Pires, de 36 anos, abandonou um saco de plástico preto. Em seu interior, estavam a cabeça e um braço da vítima.
Com a informação de que ele pagou por uma corrida de táxi até o bairro, a busca pelo assassino teve início. Os investigadores do setor de homicídios da delegacia chegaram até uma outra taxista que teria buscado o pintor na avenida das Seringueiras, para levá-lo para outro lugar. Segundo o relato da mulher, ele estava com outro saco na mão, dizendo que enterraria um animal de sua família em Rifaina. Perto da Chave da Taquara, na rodovia Cândido Portinari, decidiu parar e deixou ali mesmo um saco com as demais partes do corpo de Ana Cláudia.
Esses outros pedaços foram descobertos na segunda-feira, quando os policiais chegaram até a taxista e, depois, prenderam Denny, no bairro da Estação. Sem hesitação em seu tom de voz, tampouco citando o nome de Ana Cláudia, a quem chamou de “essa moça” diversas vezes, ele confessou o crime. “Matei em uma casa que a gente ficava usando drogas, no Jardim Guanabara. Ela não me deu outra saída”, disse. Após o depoimento, participar de uma reconstituição do crime e depois de conceder uma entrevista coletiva à toda a imprensa, Denny falou, com detalhes, ao Comércio, sobre o assassinato.

Qual era sua relação com a Ana Cláudia e por que decidiu matá-la?
Namorei com essa moça por um ano e meio e tinha separado fazia pouco tempo, mas ela não me deixava tranquilo. Faltou sanidade e juízo, teve muita substância na cabeça e o demônio no corpo. Foi a colaboração das coisas ruins que a gente carrega dentro de si. No dia, brigamos. Eu não queria matar a moça, mas ela pediu por isso. Não me deu outra saída e não teve crueldade.

O que aconteceu para chegar a esse ponto?
Muita coisa aconteceu e fiquei magoado. Ela ficava perto de mim sempre e ia onde eu estava.  Ela queria me passar ciúme e me desrespeitou muito. Afetou minha moral. Provocou e pediu isso a partir do momento que insinuava e estava com outros perto de mim. Ficava com outras pessoas e me humilhou mesmo depois de separados.
 
Quando a briga começou, você tinha a intenção de matar a Ana Cláudia?
Não. Foi a força que o demônio me deu e a falta de juízo. Eu estava descascando um objeto para fazer um cachimbo e fumar meu crack. Estava com um bisturi na mão quando ela começou a falar. Essa moça chegou muito perto e pedi para sair. O crack deixa a gente louco, eufórico e fora de controle. Ela me falou umas coisas e, rapidamente, fui para cima.

Onde vocês estavam quando a briga teve início?
No quarto dessa casa que usávamos para consumir drogas. Ela estava no colchão e eu peguei o bisturi. Passei no pescoço e deixei a moça “esgotar sangue” no colchão inteiro.
 
Depois de assassiná-la com o bisturi, o que você fez?
Deixei o corpo lá caído, com o corte no pescoço, e fui usar minha droga. Dormi e, no dia seguinte, resolvi dar fim (no corpo). Para isso, fui até uma loja de ferramentas, comprei o machado e, quando voltei, terminei o que tinha para fazer. Carreguei ela no colo até a varanda, forrei o chão com um plástico e comecei a repartir. Depois, ensaquei tudo.

Qual razão de ter decidido esquartejar o corpo?
Era o jeito mais fácil de transportar. Não é fácil matar alguém e sair na rua. Picotei assim, com o machado, do lado de fora da casa, porque não tenho carro e não tinha como carregar o corpo nas costas. Separei nos sacos e larguei nesses lugares depois de conseguir um táxi. Estava com medo de alguém achar. Quando voltei para a casa, coloquei fogo no colchão em um terreno ao lado e quis sumir com tudo.

A taxista que você contratou para uma corrida do Residencial Amazonas até a Chave da Taquara, entre Cristais Paulista e Pedregulho, sabia o que estava transportando?
De jeito nenhum. Quem vai transportar um corpo sabendo que é um cadáver, se não for o assassino? Se ela soubesse, acho que eu teria sido preso antes. Ninguém que trabalha de táxi ou com transporte carrega um corpo sabendo disso. Foi o úni”co jeito que achei para ela carregar os pedaços; foi sem saber o que era. Quando perguntou, falei que era um animal morto que eu ia enterrar.
 
O que sente pela Ana Cláudia? Por que não fala seu nome quando comenta sobre o que aconteceu?
(respira fundo antes de responder) Não sei se amei ou se ainda amo. 
 
Você atribui o que fez com ela às drogas?
A gente vai decaindo até ficar no nível da droga. Tem nove anos que estou nessa vida. Tentei de tudo para sair e tirar a moça disso também. Antes, minha vida era boa. Eu trabalhava, tinha amigos, entretenimento e minha família. Atualmente, o dinheiro que eu ganhava com o pouco que conseguia trabalhar como pintor autônomo, eu destinava para a compra de drogas.

Você se arrepende do que fez?
Lógico. Principalmente pela parte divina. Nunca achei que aconteceria isso ou fizesse algo assim. Eu não tenho o poder de ressuscitar ninguém, mas me arrependo do que fiz.
 
Espera ser perdoado um dia?
O sentimento que eu carrego é só meu. Apenas tenho que pedir perdão, pois desculpas você pede para errar de novo. Se a minha família e a dessa moça não me perdoarem, eu vou entender. Tudo que eu quis foi o bem dela e não queria que isso acontecesse.

*Colaborou Marcos Silva, da Rádio Difusora

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