E o Brasil fica muito mais pobre


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Nos anos de chumbo, dom Paulo Evaristo Arns foi uma das poucas vozes que se elevaram contra a ditadura militar que governou o País com truculência, mergulhando o Brasil num período de trevas onde o cidadão teve os seus direitos suprimidos. Sepultado ontem, o combativo cardeal morreu aos 95 anos e seu velório causou comoção, atraindo políticos, empresários, trabalhadores e líderes religiosos que exaltaram o seu trabalho e sua opção pelos menos favorecidos.
 
Respeitado e temido, amado e odiado, D. Paulo tornou-se um símbolo de resistência. Denunciou as torturas nos quartéis, visitou presos em suas celas, liderou atos de protestos. No período mais difícil do regime, procurou o presidente Emílio Médici, em nome do episcopado paulista, para lhe entregar o documento Não te é lícito, no qual os bispos exigiam o fim das torturas. Médici deu um murro na mesa ao ouvir a advertência do cardeal e o pôs para fora de seu gabinete. “O senhor fique na sacristia, que nós cuidamos da ordem”, irritou-se o general. D. Paulo pegou de volta o exemplar da Rerum Novarum, a encíclica de Leão XIII que levara de presente, mas fora jogada de lado. Depois disso, só tiveram contatos protocolares. 
 
Em defesa dos direitos humanos, visitava operários, estudantes e políticos nas celas da polícia. Com o presidente Ernesto Geisel, os problemas se agravaram. Embora tivesse um canal de comunicação direta com o governo — o general Golbery do Couto e Silva —, o cardeal enfrentou situações difíceis. O auge foi o assassinato do jornalista Vladimir Herzog, em outubro de 1975, na sede do DOI (Destacamento de Operações de Informações) do 2º Exército. D. Paulo promoveu um ato ecumênico na catedral em memória de Herzog, que era judeu. A cerimônia levou mais de 8 mil pessoas à Praça da Sé. Ao lado de vários bispos, lá compareceram o rabino Henry Sobel e o pastor presbiteriano Jaime Wright — dois aliados que, daquele dia em diante, lutariam de mãos dadas com o cardeal em defesa dos direitos dos perseguidos pelo regime.
 
A morte de D. Paulo Evaristo Arns cria uma lacuna enorme, bem difícil de ser preenchida. E o nosso País torna-se mais pobre, pois perde parte da sua dignidade e da sua capacidade de defender os menos favorecidos e os oprimidos. Quem dera tivéssemos em diversos setores, principalmente na política, centenas de outras personalidades com o estofo moral, a coragem e a impetuosidade de D. Paulo Evaristo Arns. Com certeza, não estaríamos na situação em que nos encontramos atualmente, quando as notícias sobre fraudes, corrupção e dinheiro desviado dos cofres públicos tomam conta do noticiário.
 
 
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