O Brasil troca de comando, mas os políticos não alteram a forma de agir. Desde o começo do governo de Luís Inácio Lula da Silva, 14 anos atrás — e bem antes dele, desde a proclamação da República —, o governante de plantão sempre culpa a janela pela paisagem. Tudo vem se repetindo, sem que a classe política assuma os seus erros e defeitos, preferindo creditar a terceiros as ilegalidades, os malfeitos e a ladroagem que se tornaram institucionalizados no Brasil. Quando estourou o mensalão, Lula culpou a imprensa e as “elites” pela “mentira”. O julgamento do STF (Supremo Tribunal Federal), colocando próceres do Partido dos Trabalhadores atrás das grades, mostrou o contrário. Veio o esquema do Petrolão e o PT agiu igual. Caiu Dilma Rousseff, foi a mesma coisa. Agora, quando as investigações chegam perto do Planalto desta vez o presidente Michel Temer (PMDB) utiliza o mesmo estratagema.
Diante das informações de que alguns de seus mais diletos amigos (e auxiliares) utilizaram o “toma lá, dá cá” para conseguir dinheiro da empreiteira Odebrecht, investe contra os vazamentos que considera ‘seletivos’ e exige que estes sejam apurados, assim como Lula e Dilma. Quanto aos auxiliares Moreira Franco e Eliseu Padilha, nomes de proa em seu governo, dois dos acusados pela construtora, nenhuma manifestação. Outros dois, Geddel Vieira Lima e Romero Jucá tiveram que deixar o ministério por causa de denúncias anteriores. Este último, inclusive, retomou mandato no Senado, onde aparece como principal negociador do governo, ao lado do presidente da Casa, Renan Calheiros (PMDB), também acusado de receber dinheiro desviado de obras públicas. Este, réu em um processo no Supremo, além de denunciado em mais doze processos na mais alta corte da Justiça brasileira, nem se abala e continua comandando o Senado. Isso sim merece investigação urgente.
Michel Temer deveria, isso sim, exigir daqueles que o rodeiam uma honestidade e probidade capazes de melhorar a sua avaliação junto ao brasileiro, que vem despencando nestes últimos tempos. O presidente é capaz de dizer que o vazamento do conteúdo das deleções premiadas, que já o colocam como beneficiário do dinheiro sujo, estariam prejudicando a economia do País. Esquece-se ele que a economia brasileira já vem deteriorada há pelo menos dois anos, por causa da ação imprudente do governo Dilma Rousseff, e que vem sendo ampliada por causa da demora em aprovar as reformas fiscal e tributária. Só o que se apresentou até agora não será capaz de tirar o País do buraco. É preciso muito mais, como o completo enxugamento nos gastos da máquina pública, inclusive com o corte de vantagens e benefícios dele próprio, de seus auxiliares e de parlamentares. E nada disso tem a ver com os vazamentos.
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