O bom viver


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Descobri que tenho uma alma melancólica. 

Gosto de tardes quietas, de silêncio sacro, de tempo parado. De livros antigos, páginas amarelas, cheiro de outras vidas. 
 
Gosto muito de casas antigas, pedras antigas, estórias misteriosas, dramas inconfessáveis. 
De janelas abertas, cortinas tremulantes, estéticas de calma e luz. 
Gosto sobremaneira de fotos branco e preto, chapéus antigos, luvas, passado, presente, futuro. 
 
Outra atividade de que gosto é mergulhar em calmas leituras de Érico Veríssimo. 
Suas estórias profundas, verdadeiras, dramáticas. Estórias carregadas de paixão, dor, alegria e beleza.
Noites na rede, livro aberto, cigarras ao longe... Música ao longe, parodiando Érico...
 
Mergulhar também em Machado de Assis, em suas estórias do século XIX, suas senhoritas com suas luvas e seus chapéus, sua peculiar ironia. 
 
Diante desta aura calma, de ventos macios, de café moído na hora, muitas vezes não cabe o rebuliço da cidade, das necessidades do cotidiano ou do prazer mundano.
 
Tenho vontade de  usar um vestidinho poá  a  anos 50, pegar um cardigã macio e me aquecer junto ao fogo que crepita.
 
 Com um livro destes mestres em mãos, que também pode ser um Edgar Allan Poe, uma Ágata Christie, qualquer estória que remeta à neblina londrina, ao um mistério inconcebível, ao conforto de um espectador, a minha vida pode correr solta.
 
Então, custa-me muito sair deste conforto aquecido, desta alegria administrável para dar um salto no bate-papo com os amigos, ou inimigos, no passeio da praia ou na curtição de um Jet-ski.
 
Ah, deixem-me aqui, onde só existe à meia-luz o “tic-tac” do relógio, fogo brando e uma taça de vinho. Deixem-me, que assim me encontro com os deuses do bom viver.

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