Loucura e lucidez


| Tempo de leitura: 1 min
Recomendo a leitura de O filósofo e as paixões: esboço de uma história da natureza humana, de Michel Meyer. De início há duas epígrafes provocativas: ‘nada de grande se faz sem paixão’ de Hegel; e ‘quem vive sem loucura não é tão sábio quanto se julga’ de La Rochefoucauld. 
 
Evocaram em mim, intermináveis reflexões. A primeira é mais fácil de aceitar. Sem paixão, sem desejo, ou, em linguagem empreendedora, sem meta, sem foco, não se realiza nada. 
 
A outra trabalha com o par ‘lucidez’ e ‘loucura’. A sabedoria está na lucidez. Louco não é sábio, certo? Nem sempre. A palavra ‘loucura’ pode ser metáfora. Por revelar que valores considerados corretos só o são por imposição. A ‘loucura’ permite vivenciar mundo diferente, realidade que talvez gostaríamos de viver, mas não o fazemos por medo. Loucos só são consideramos assim porque os taxamos. Para alguns ‘loucos’, ‘loucos’ somos nós. 
 
Paixão ‘é a maneira como o sujeito da enunciação se implica. Há muitas paixões: são as disposições para diversas emoções, para as partidas corporais, tendo o prazer ou a dor como resultado. Há poucas afirmações que não encerram uma paixão mais ou menos dissimulada’. Explico. Na frase ‘Cicrano usa um Rolex’, pode constatar a paixão da inveja ou a da alegria da amizade. 
 
Já em ‘Essa mulher é linda’, as paixões surgem em respostas a perguntas — Quem é a mulher? Em que contexto foi dita? É sinônimo de beleza (real) ou de feiura (ironia)? Ao afirmar a beleza, afastamos outros atributos? Se não controlamos os efeitos de sentido da fala, podemos ser loucos. Ou lúcidos... 
 
 
Acir de Matos Gomes
Advogado, professor universitário na Unifran

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários