Na tarde do dia 17 de novembro, à beira da piscina de seu prédio, no bairro Santa Cruz, um dia depois da festa de seus 61 anos, Gilson de Souza (DEM), prefeito eleito de Franca, recebeu o Comércio para uma entrevista.
Vestido com uma camisa polo vermelha e calça jeans, escolheu o banco próximo a um jardim para falar dos seus planos para os próximos quatro anos, período em que comandará a cidade.
Gilson já foi vereador e, por quatro vezes, deputado estadual. Antes da vitória nesta eleição, já havia disputado a prefeitura em outras quatro ocasiões e sempre saiu derrotado. Neste ano, ficou em segundo lugar no primeiro turno, mais de 30 mil votos atrás de seu opositor Sidnei Rocha (PSDB). Em menos de um mês, no segundo turno, conseguiu virar o jogo. No dia 30 de outubro, foi eleito com mais de 90 mil votos.
Terminada a apuração, Gilson já se organizava para montar seu governo. O primeiro a ser anunciado foi o ex-secretário de Finanças, Sebastião Ananias, que voltará a ocupar a mesma pasta. Depois foi a vez da empresária Flávia Lancha (PMDB), que junto com Gilson também disputou o primeiro turno e terminou em terceiro lugar. Flávia foi escolhida para comandar a Secretaria de Desenvolvimento. O terceiro nome confirmado foi o do ex-juiz estadual, Luiz Pinheiro, como secretário de Administração.
Na entrevista, Gilson contou como estão as negociações para as outras sete secretarias e para a transição de governo. Evitou fazer críticas ao atual prefeito, Alexandre Ferreira (PSDB), e disse que a marca de seu governo será o diálogo. Confira.
O senhor já havia concorrido à Prefeitura outras quatro vezes e foi derrotado em todas. Como foi vencer depois de tantas eleições sem vitória?
Foi a realização de um sonho. Sempre concordei com uma frase do ex-presidente Juscelino Kubitschek que dizia “o que adianta ser presidente de seu país se não puder ser prefeito de sua cidade”.Fui vereador e deputado por quatro mandatos e sempre alimentei a vontade de ser prefeito de Franca. Em 1996, eu era o favorito e cheguei bem perto de ser eleito, mas acabei derrotado. Depois continuei concorrendo. Foram 20 anos de amadurecimento e experiências até que chegasse aqui. Mas, neste ano, não sei explicar bem o porquê, tinha certeza de que havia chegado a minha vez. Eu sabia que ia vencer. Eu sentia isso. Pode perguntar para os meus amigos mais próximos, para eles, eu até fazia projeções sobre o número de votos e acertei. Deus me deu essa oportunidade agora porque estou mais preparado para esse desafio. Fiquei muito feliz com o fato de a população ter me dado esse voto de confiança. Só tenho a agradecer. E dizer para as pessoas que a realização de um sonho depende da gente. Tudo depende de não desistirmos. Sou a prova disso.
Essa foi uma campanha diferente das anteriores. Com regras mais rígidas e pouco tempo para fazer campanha. Em Franca, ainda houve o surgimento de uma polaridade de grupos, principalmente nas redes sociais. Houve ataques de ambos os lados. O senhor guarda alguma mágoa do ex-prefeito Sidnei Rocha?
Não acho que tenha havido isso. Acho que foi mais uma coisa de esperança. O Sidnei já havia tido a oportunidade de ser prefeito de Franca por três vezes estava tentando sua quarta vitória. Ele é uma liderança política forte que precisa ser respeitada. E eu ainda não tinha sido prefeito, apesar da minha grande experiência política. Então, acho que a população pensou: “vou dar uma oportunidade para o Gilson”. Para mim, foi isso. Não guardo mágoa de ninguém. Eu já tinha tido a experiência de ser vereador quando o Sidnei era prefeito. Começamos juntos na política. Depois, quando fui deputado e ele de novo era prefeito, também conversávamos bastante. Trabalhamos lado a lado. Não tenho dificuldade nenhuma com ele. O momento é que nos levou à disputa. Fiz uma campanha limpa, sem falar nada dele. Só falando das minhas propostas. Todo mundo acompanhou. O que quero agora é criar um conselho de ex-prefeitos e poder trocar experiências.
Como funcionaria esse conselho? O senhor vai pedir ajuda aos ex-prefeitos?
Na política, assim como na vida, você sempre pode aprender um pouquinho mais. Sei que terei que enfrentar algumas dificuldades nestes próximos quatro anos. Se eu for uma pessoa do diálogo, da conversa, através do conhecimento que eles (os ex-prefeitos) têm a respeito da administração da cidade, posso fazer o melhor para Franca. É importante um governante se abrir para o diálogo. Você não pode se fechar. Vou buscar a sabedoria de quem já esteve na Prefeitura. E acho que os vereadores que estão chegando também poderiam fazer o mesmo. Eu mesmo me coloco à disposição para ajudá-los, porque eu já fui vereador. Já estive deste outro lado. Trabalhei com três prefeitos. Posso contar das minhas experiências, posso orientar e ser parceiro. Como vou buscar os ex-prefeitos, posso também, como ex-vereador, dialogar com quem está chegando. Independentemente de partido, existem vários ex-prefeitos que podem me ajudar. Até o Sidnei Rocha, por que não? Abrir o diálogo é o mais importante. Serei o prefeito do diálogo.
Falando sobre relacionamento, como será sua relação com a Câmara? O senhor pode enfrentar uma grande oposição. O PSDB terá a maior bancada no ano que vem e já articula para que o grupo conquiste a presidência da Câmara...
Já tive a oportunidade de conversar com todos os quinze vereadores que foram eleitos ou reeleitos. E acho que eles devem desenvolver um bom trabalho. Estão todos muito motivados. Terei uma boa relação com todos. Tenho essa facilidade de conversar. Toda a oposição é necessária e faz parte de qualquer governo. Estou pronto para lidar com isso.
O senhor disse que ser prefeito de Franca é um sonho. O que a população de Franca pode esperar do prefeito Gilson de Souza? Quais serão as prioridades?
Ainda não consegui tomar pé de tudo o que acontece na Prefeitura. Nem tive acesso a todos os números e relatórios de análise. Então, não tenho como dizer quais serão minhas prioridades. Quero primeiro conhecer de perto o funcionamento da prefeitura, para poder tomar uma decisão.
Sim... Mas deve ter alguma área ou alguma medida que o senhor considere mais urgente e que mereça uma atenção mais imediata...
Sim... A Saúde sem dúvida.Ela será a primeira a ser analisada. Quero rapidamente poder diminuir as filas tanto das cirurgias eletivas como as de consultas com especialistas. Quero começar uma ação rápida para que possamos transformar o Pronto-socorro “Álvaro Azzuz” em hospital dia. Com base no diagnóstico que será feito, vamos buscar os recursos. Mas uma coisa é certa: temos que melhorar a qualidade do atendimento. Também vou buscar recursos para resolver o problema da falta de vagas em creches. Hoje são mais de 2,5 mil crianças na fila. O ponto central do nosso governo também será a Educação. Queremos dar capacitação aos professores e abrir um maior diálogo com os profissionais da área.
A estimativa do orçamento para 2017 é de R$ 200 milhões a menos do que foie sse ano. Como o senhor pretende lidar com essa redução?
Tenho dito a todos que o nosso grande desafio será fazer mais com menos. Ao tomarmos ciência das contas municipais, faremos um planejamento para ver onde é possível economizar. O que tivermos que fazer vamos fazer. Mas o atendimento à população na Saúde e na Educação está garantido. Durante a campanha, falamos muito sobre melhorar a qualidade de vida dos francanos e é nesta linha que vamos atuar.
E como têm sido esses dias depois da eleição? Como está sua rotina?
A eleição foi no domingo e na segunda eu já estava trabalhando. Fui à praça ouvir as pessoas. Tenho andado muito pela cidade para ouvir o que a população tem a me dizer. Estou ciente de que ser prefeito é ser um mero instrumento do povo durante quatro anos. A gente passa mas a cidade fica. Quero fazer uma gestão compartilhada com todos contribuindo. Vou me empenhar ao máximo para fazer jus aos votos que recebi. Vou trabalhar muito como sempre fiz. Comecei a trabalhar aos 10 anos na feira, com meu pai. Minha vida inteira trabalhei e não será diferente. Quero ir a São Paulo, a Brasília lutar por verbas. Também quero montar uma equipe técnica e comprometida com o desenvolvimento da cidade. Quero contar muito com os servidores. O prefeito é um servidor também. Não podemos ignorar isso.
Uma das suas principais propostas de campanha foi a redução na tarifa de ônibus na cidade. A expectativa por parte de quem depende do transporte público é grande sobre essa questão. Como estão as negociações com a São José?
O governo ainda é do Alexandre Ferreira. Então, ainda não comecei a mexer com isso. Não tem como. Mas vamos aproveitar a transição para ver como estão as coisas. Sou homem de dialogar e vou conversar com a São José, sim. Vejo que é possível a redução. Na campanha, no sábado, domingo e mesmo no feriado, observava os circulares cumprindo o trajeto das linhas mas com poucos passageiros. E pensei o seguinte: R$ 3,80 para quem trabalha é muito, principalmente se ele for também usar ônibus no fim de semana com a família. Fica pesado no orçamento e por isso os ônibus estão praticamente vazios. Agora, se o preço diminui para R$ 1, as pessoas usarão mais. E com isso, o resultado financeiro pode ser melhor porque o ônibus tem que circular do mesmo jeito. Tenho certeza de que dá pra fazer.
O governo do atual prefeito Alexandre Ferreira (PSDB) está chegando ao fim. O que o senhor apontaria como seus principais erros e maiores acertos?
Prefiro falar do nosso governo. A avaliação sobre o Alexandre eu deixo para a população e para o eleitorado. A população é que tem que dar uma nota.
Como o senhor espera que Franca esteja daqui a quatro anos, no final do seu mandato?
Espero que nossa cidade esteja muito mais bonita. Uma Franca que eu tenha orgulho, que eu pense: ‘puxa vida, Deus me deu a oportunidade de ser prefeito da minha cidade, trabalhei por ela e fiz tudo o que pude para que ela fosse cada vez melhor’.
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