Setor calçadista se transforma e dá adeus às gigantes


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Funcionários trabalhando na Calçados Rota Norte, que produzem sapatos para a Sândalo. Baratear custos de produção foi saída
Funcionários trabalhando na Calçados Rota Norte, que produzem sapatos para a Sândalo. Baratear custos de produção foi saída
Hoje, de cada 10 indústrias calçadistas em funcionamento na cidade, oito são microempresas. Segundo dados do Ministério do Trabalho, as empresas com menos de 20 empregados dominam a produção de calçados de Franca. Elas correspondem a 85% das mais de 1,5 mil indústrias calçadistas. As gigantes, que reuniam mais de mil funcionários, desapareceram ao longo das últimas duas décadas. Atualmente, apenas três indústrias possuem mais de 500 empregados. 
 
Os números são um reflexo da transformação enfrentada pelo setor. Há 20 anos, no auge da produção calçadista, as microempresas representavam pouco mais da metade do setor, com 278 fábricas. Na outra ponta, a cidade somava mais de 15 grandes empresas, sendo que 4 delas tinham mais de 2 mil trabalhadores. 
 
Segundo as pesquisadoras Edvânia Ângela de Souza Lourenço e Íris Fenner Bertani, em seu artigo Reestruturação produtiva no setor calçadista de Franca/SP, publicado em 2009, a partir dos anos de 1990, houve a transferência de parte da produção para os prestadores de serviços, os quais, na maioria das vezes, eram ex-funcionários (sapateiros), na chamada terceirização. “Com o crescimento do desemprego e a precarização do trabalho e do salário da categoria em meados dos anos 90, os trabalhadores dispensados, na busca por melhores condições de vida, acabam aderindo à filosofia do empreendedorismo, com a formação das denominadas bancas de pespontos”, escrevem. 
 
A prática acabou sendo incentivada pelas indústrias. “A terceirização no setor calçadista foi intensificada na década de 1990 como estratégia para baratear os  custos da produção, eliminando, oficialmente, várias vagas no interior das fábricas. Na verdade, essas vagas não foram eliminadas. Foram transferidas do ambiente fabril e industrial para o doméstico e familiar, caracterizado pelas fabriquetas”, explica o pesquisador Ricardo Lara, em sua tese de mestrado denominada As determinações do trabalho (in)visível, em que ele faz uma análise do setor em Franca. 
 
O modelo criado acabou se enraizando a ponto de algumas grandes empresas terceirizarem inteiramente suas linhas de produção como foi o caso da Calçados Sândalo e da Samello. “Isso aconteceu porque, para baratear os custos de produção, as fábricas buscaram alternativas. Mantiveram suas marcas e repassaram a produção. Foi a saída encontrada”, explicou o presidente do SindiFranca (Sindicato da Indústria de Calçados de Franca), José Carlos Brigagão. “A produção da Sândalo, hoje em dia, por exemplo,  é feita por 12, 15 pequenas empresas”, disse ele.  
 
Para o presidente do Sindicato dos Sapateiros, Sebastião Ronaldo, a terceirização é uma faca de dois gumes. “De um lado, foi uma alternativa positiva para a manutenção do emprego, mas por outro, a classe trabalhadora acabou prejudicada porque muitas dessas pequenas empresas não conseguem cumprir com todas as obrigações trabalhistas”, disse.

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