Em qualquer país sério um agente público suspeito de alguma ilegalidade acaba perdendo o posto. Nos últimos tempos, no Reino Unido, por exemplo, deputados e ministros foram afastados em razão de uma indiscrição amorosa ou suspeita de corrupção. Assim, ele pode preparar sua defesa e, caso prove a inocência, retorna ao cargo. Do contrário, é processado e responsabilizado criminalmente pelo crime que eventualmente tenha cometido. Se o caso envolver um escândalo sexual, perde o cargo e nunca mais consegue se reeleger ou ser indicado para um cargo público. Aqui no Brasil as coisas ocorrem de maneira diferente: mesmo alvo de processo, políticos são mantidos no posto à espera que o caso “esfrie”. Há casos de condenados que continuam atuando, como o presidente da Assembleia Legislativa de Roraima que passa noites na cadeia. São situações assim que deixam o brasileiro desanimado com a política e nossos políticos.
Nas últimas eleições, o resultado do segundo turno em Franca (onde quase 30% dos eleitores não compareceram, votaram em branco ou anularam o voto) mostra claramente esta situação. Por isso, é preciso de uma mudança radical na forma de tratar a formação de equipes, principalmente na administração federal. O presidente Michel Temer mantém ao seu lado pessoas que enfrentam processos na Justiça, denúncias e suspeitas graves, como se fosse o seu dever blindar o auxiliar. É o caso do ministro-chefe da Secretaria de Governo, Geddel Vieira de Lima. O ministro da Cultura Marcelo Calero pediu demissão e acusou Lima de tê-lo pressionado a produzir um parecer técnico para liberar a construção do empreendimento imobiliário La Vue Ladeira da Barra, nos arredores de uma área tombada em Salvador, na Bahia. Mesmo diante disso, Temer resolveu manter Geddel na sua equipe.
Agora, a Comissão de Ética da Presidência da República abriu ontem, por unanimidade, procedimento investigativo para apurar se Vieira Lima violou a legislação no caso que resultou na demissão de Marcelo Calero. no mesmo dia em que Temer confirmou a manutenção de um aliado. No Brasil, aparentemente, se considera o afastamento algo similar a uma condenação, o que não corresponde com o que se faz em país mais sério e democraticamente consolidado. Substituir Geddel seria salutar não apenas para a sequência do governo, além de preservar o próprio acusado. Do contrário, fica a suspeita de acobertamento. A visão política de nossos representantes precisa mudar, para o bem do Brasil. Só assim teremos a certeza de que estamos vivendo mesmo uma nova era.
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