Com 52 anos, 26 deles dedicados ao trabalho que realiza no Ministério Público, o promotor de Justiça José Lourenço Alves recebeu, em seu apartamento, na última quinta-feira, a equipe do Comércio. Tendo na pauta o Dia da Consciência Negra, comemorado neste domingo, ele falou sobre os desafios enfrentados pelos negros, racismo, cotas em vestibulares e concursos, o poder transformador da educação e o orgulho de tudo o que foi conquistado nas últimas décadas pela comunidade negra e tudo o que ainda precisa evoluir.
Natural de Botucatu (SP), ele cresceu com a mãe, funcionária pública e o pai, jogador de futebol profissional e mais três irmãos, em Bebedouro (SP). Foi lá, após ingressar no curso de administração e não gostar do mesmo que, sob influência de um professor, decidiu se tornar um advogado. Em 1984, ingressou no curso de direito da Unaerp (Universidade de Ribeirão Preto). Durante as aulas e acompanhando o trabalho de seus professores, além de observar as discussões sobre a reforma da Constituição, decidiu que seu futuro seria no Ministério Público. Após concluir a faculdade, em 1988, chegou a trabalhar em um escritório, mas dois anos depois já iniciava sua carreira como promotor de Justiça. Atuando na área criminal, o promotor passou cerca de 12 anos em Palmeira d’Oeste. Em 2.003, incentivado pela sobrinha que cursava direito na cidade, conseguiu transferência e mudou-se para Franca.
Desde então fez parte do início das operações do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) em Franca e foi responsável por centenas de ações na área criminal na cidade. Com mestrado em Desenvolvimento Regional concluído no Centro Universitário Uni-facef, atualmente o promotor cursa doutorado de promoção em saúde na Unifran (Universidade de Franca).
Qual a importância do Dia da Consciência Negra?
É importante o dia para fomentar debates referentes à comunidade negra, sua história e cultura, mas sei também que vivemos em uma sociedade cheia de preconceitos, na qual a questão da cor da pele é muito levada em consideração. Sei que, antes de ser promotor, morador de Franca ou qualquer outra coisa, o que vem primeiro é a cor da minha pele. Muitas vezes indiferentemente, outras de forma depreciativa e poucas vezes de destaque quanto ao que consegui. Temos uma sociedade problemática em vários aspectos, por isso temos o Dia da Mulher e leis para evitar a violência, afinal a mulher é ainda muito depreciada, temos o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), o Estatuto do Idoso e também o Dia da Consciência Negra, para mostrar que são situações que ainda devem ser discutidas para que um dia não sejam mais necessárias essas medidas. Avançamos muito enquanto Brasil e Franca, assim como as demais cidades, mas estamos bem longe do ideal, por isso, datas como essa são necessárias para salientar a importância dessas discussões.
Mesmo ocupando um cargo de destaque no meio jurídico, já passou por situações de preconceito devido a cor da sua pele?
Na minha classe de 65 alunos, apenas 5 eram negros e sempre me questionei sobre os motivos disso. Tive sorte de ter uma família que me fornecia estrutura suficiente para trabalhar fora e pagar o meu curso, mas muitos não têm essa oportunidade. Nunca fui maltratado pela cor da minha pele, mas sabemos que estou dentro de uma minoria. Hoje, por exemplo, apenas 3% dos promotores públicos do Estado de São Paulo são negros. Já tive casos em que cheguei em determinados locais, prédios públicos até e, somente pela cor da minha pele, sem nenhum questionamento maior, me trataram como inferior.
Qual a sua opinião sobre as cotas para vestibulares e concursos?
Sou totalmente favorável à lei de cotas e acredito que ela seja fundamental para igualar. Você acredita que a maioria dos negros não tiveram ou não têm a mesma sorte que eu? Então, são necessárias essas cotas para que a disputa ser justa. Um dia, não vamos precisar mais, assim como não precisaremos da lei Maria da Penha, do ECA e do Estatuto do Idoso, mas não é possível especificar quando poderemos ficar sem. Nesse momento, ela é fundamental.
O senhor acredita que hoje o negro, de forma geral, está melhor na sociedade?
Eu diria que sim, que nós tivemos avanços, mas ainda falta muito para avançar e não estou satisfeito com o quadro que temos hoje. Me considero um privilegiado, por várias razões. Mas ainda é muito fácil eu passar por situações complexas apenas pela cor da minha pele. Ainda hoje as pessoas associam as pessoas de cor negra com um sentimento de inferioridade. O dia da Consciência Negra também deve servir para os negros se conscientizarem da importância da cultura trazida pelos nossos ancestrais. A riqueza da religião, da dança, da culinária e tudo de uma forma geral.
O senhor acha que é mais difícil combater o racismo nessa era virtual?
Ao contrário, acredito que hoje vemos muitos casos de racismo na internet, mas também vemos muitas pessoas se rebelando em relação a isso. Com o tempo, as pessoas vão entender que não podem fazer isso e ficarem impune. Com a educação, tenho esperança que no futuro não será mais necessária esse tipo de punição.
É possível educar a sociedade contra o racismo?
Esse é o único caminho. Existe a importância da lei penal, mas o caminho para vencer o preconceito é a educação. Ela é uma relação de ensino e aprendizado, mas a escola não é o único lugar em que as pessoas ensinam e aprendem. Tem a família, os espaços sociais, amigos, ou seja, o tempo todo é possível aprender. Se na educação existe o ensinar, necessariamente precisamos da vontade de aprender. Não é necessário apenas os melhores professores, computadores, mas, sim, estimular a beleza do aprendizado. Aprender talvez seja uma das melhores formas de ensinar e esse é o caminho.
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