Há algo que aponta para a saúde psíquica e para a maturidade. É o ser flexível.
Rigidez, eu aprendo toda vez que leio algum texto psicanalítico, ou quando me vejo enroscada na sala de análise, atuando como psicanalista, tem a ver com “negação da realidade”.
Não me refiro ao “louco” desvairado, de “carteirinha”, como se diz, de uma maneira às vezes pejorativa por parte do senso comum. Mas aqui eu me refiro àquele que nega a realidade, para não sofrer. A negar a realidade tal qual vive, internamente, e a realidade tal qual não vive, externamente, e, com isso, não pode vir a aprender, não pode vir a se transformar, não pode compartilhar verdadeiramente com outros seres, amados ou não.
Flexibilidade implica em saber criar novos caminhos, novos símbolos para o que se experencia. Implica em renunciar a, teimosa ou compulsoriamente, insistir em fazer um mesmo trajeto, falar as mesmas palavras, repisar os mesmos sentimentos, cultivar ressentimentos, e se imobilizar feito um monumento frente as águas eternamente móveis da vida que passa, da vida que continua.
A vida passa, continua, apesar de nossos protestos ruidosos ou surdos, calados na noite, ou aos berros à luz do dia.
Azar nosso se continuamos ao relento – dia e noite – fixados em pedestais de crenças e superstições, de altares inquestionáveis.
Ser flexível comporta um grau de desrazão, um grão de loucura, o sal dos incompreendidos, a coragem dos desgarrados da massa. Sim, há riscos em ser flexível. Há que suportar o apedrejamento de quem quer apenas segurança e a paz das manadas a pastar no campo restrito daquilo que se sabe. Apenas se sabe, mas nem sempre se sente, e nem sempre se apercebe do curral em que vive.
Ser flexível é ser revolucionário: é partir do porto sem saber aonde aportar, é confiar na própria bondade e na bondade do outro em me hospitalizar.
Ser flexível é, afinal, se convencer que a vida é muito maior do que posso imaginar e está aquém e além do que posso alcançar. Seguir o fluxo da vida pede um grande amor no coração.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.