Foi em seu escritório, no Residencial Paraíso, que a empresária e futura secretária municipal de Desenvolvimento, Flávia Lancha (PMDB) atendeu o Comércio, no final da tarde da última quinta-feira. O local concentra os negócios da Labareda Café Especiais, empresa especializada em produção e exportação de cafés especiais, que é comandada por Flávia e por sua família. O negócio está em plena expansão. Para atender a toda a demanda, uma reforma está sendo feita.
Bem humorada, Flávia estava acompanhada do marido, Gabriel Oliveira, e de seu filho caçula que tem o mesmo nome do pai. Ela lembrou de sua infância quando o pai e ex-prefeito de Franca, José Lancha, é quem vivia a política. Contou como a vida a levou para a política e revelou seus planos. “Ainda quero ser prefeita. Não desisti, não”, disse.
A partir do próximo dia 1º de janeiro, Flávia assumirá o comando da Secretaria de Desenvolvimento. Entre seus primeiros desafios, estão a organização do Carnaval e a preparação para a Expoagro. Flávia foi o segundo nome já anunciado pelo prefeito eleito Gilson de Souza (DEM). O primeiro foi Sebastião Ananias, que deve comandar a Secretaria de Finanças. No mesmo dia da entrevista, Gilson anunciou o terceiro nome de seu governo, o juiz de Direito aposentado Luiz Sampaio, que ocupará a Secretaria de Administração.
Apenas agora aos 57 anos, a senhora resolveu ingressar na política. Por quê?
Vivi a política a minha vida inteira. Me lembro que não tinha nem 4 anos e meu pai se elegeu vereador. Depois continuou na política. Perdi a conta de quantas campanhas dele eu participei ativamente. Na década de 1980, ainda nova, também participei da Constituinte (movimento de deputados e senadores para a reforma da Constituição Federal). Fazia parte do grupo que discutia a iniciativa privada. Estava grávida do meu filho Gabriel e ia às reuniões em Brasília. Os outros até brincavam que ele nasceria lá. Também sempre fui muito ativa nas associações das quais participei. A Cocapec (Cooperativa de Cafeicultores e Agropecuarista da Alta Mogiana) e a Associação de Cafés Especiais, da qual sou uma das fundadoras, são exemplos. Sempre acompanhei muito a política, até por causa do meu pai. A política sempre esteve muito presente na minha vida. Nunca me candidatei, mas sempre estive na política. Já tinha sido muitas vezes convidada a participar de eleições, mas nunca aceitei. E você me perguntou: “Por que agora?”. Porque agora meus dois filhos estão trabalhando aqui na empresa, já conhecem bem nosso negócio e isso me possibilitou a oportunidade de ingressar na política efetivamente. E também há todo esse clima que o País vive. Nós, empresários e cidadãos, pedindo mudanças, querendo avanços. Então, quando recebi o convide do Fábio Liporoni (presidente do PMDB em Franca), pensei: “Por que não? Se eu saí às ruas pedindo mudanças, agora que tenho a condição de promovê-las, não posso dizer não”. Conversei, então, com o meu marido, que foi o primeiro a me apoiar. Depois com meus filhos, que também gostaram da ideia. E ouvi muitos jovens com quem tenho contato também pedindo para me candidatar. Então, foi uma conjuntura que casou vários fatores que me permitiram prosseguir.
E como foi participar de uma eleição pela primeira vez? Como a senhora avalia sua votação? Esperava superar a barreira dos 30 mil votos?
Foi um grande aprendizado em todos os sentidos. Pude ter uma visão completamente diferente da sociedade. Visitei muitos locais, conheci pessoas extraordinárias. Gente simples, que com muito pouco fazem diferença. Apertei mais de 25 mil mãos. Fui a locais que nunca tinha ido. Percebi que as pessoas mais humildes conseguem ser felizes com muito pouco. Vi a dificuldade que algumas famílias da periferia, dos bairros mais pobres enfrentam para sobreviver. Isso acaba mudando o nosso jeito de enxergar a vida. Eu, que já tinha essa vontade de ajudar os outros, fiquei ainda mais sensível. Como empresária, apesar de conviver com muita gente, vivia em um mundo mais restrito. Quando você decide entrar na política e ir para as ruas falar com as pessoas, seu horizonte se expande. Para mim, foi uma experiência incrível. Sobre minha votação, eu tinha um desafio muito grande e sabia disso. Eu era desconhecida em uma campanha travadíssima, com restrições de doações e meios, e ainda com apenas 45 dias de duração. Então, quando vi que mais de 30 mil pessoas confiaram seu voto em mim, fiquei muito feliz. Como não foram feitas pesquisas oficiais sobre a intenção de votos, era difícil para a gente dimensionar nossa campanha. Só na última semana, depois que participei da sabatina do GCN, é que percebi um crescimento muito grande e comecei de fato a acreditar que era possível chegar ao 2º turno. Acho que se a campanha tivesse mais dez dias, eu teria conseguido. Também enfrentei muitos candidatos e candidatos fortes, que já tinham um grande histórico político. Mas o que sinto é que sai desta eleição muito mais humana, muito mais fortalecida.
A senhora ficou em terceiro lugar no primeiro turno e, no segundo, apesar do seu partido se manter neutro, preferiu apoiar o Gilson de Souza. Por quê?
Então, acabou o primeiro turno, o Gilson já me ligou e disse: “Flávia, quero você no meu eventual governo. Acho que você tem muito a contribuir”. Respondi que precisava de um tempo para pensar. Eu tinha três opções: apoiar o Gilson, apoiar o Sidnei ou me manter neutra. De qualquer jeito, agradaria uns e desagradaria outros. Avaliei que a pior posição seria me manter neutra. Alguém que pretende ter uma história política tem que se posicionar. Aí, pensei, o Gilson foi quem me procurou. Não fui atrás dele. Ele que me ligou e, em um gesto de humildade, disse que eu era importante para ele e que tinha boas ideias e projetos e, por isso, me queria em um eventual governo. O Sidnei nunca me ligou. Além disso, o jeito de fazer política do Gilson tem muito mais a ver com o meu. Ele é uma pessoa que escuta, que está aberto a conversas, que pensa que o ideal é uma gestão mais participativa. Ele é um homem do diálogo. Eu tinha um alinhamento maior com ele. Achei muito mais coerente apoiar o Gilson do que o Sidnei. Não houve nenhuma negociata sobre os cargos. Não houve nenhum complô contra o Sidnei. Ninguém, nenhum dos candidatos me procurou para tratar qualquer coisa neste sentindo. O que houve é que nosso pensamento era mais parecido.
Como a senhora viu a vitória de Gilson de Souza? Acha que sua decisão de apoiá-lo no segundo turno fez alguma diferença?
Acho que as pessoas queriam mudanças. E o Gilson representava esta mudança. Outra questão que pesou foi a falta de humildade do ex-prefeito. Mesmo o Sidnei dizendo que não é arrogante, suas atitudes e posturas mostraram o contrário. Um exemplo foi o discurso que ele fez assim que viu que havia perdido a eleição. Naquele momento, em que ele não cita o nome do Gilson, não o parabeniza, ele mostra toda a sua arrogância. Sobre meu apoio, acho que fez diferença, sim. O próprio Gilson tem consciência disso e reconheceu minha ajuda quando liguei para cumprimentá-lo pela vitória.
Como está a formação do secretariado do governo Gilson de Souza?
Neste período pós-eleição, está tudo uma loucura. O Gilson está conversando com muita gente. Ele tem muita vontade de acertar, quer escolher as melhores pessoas para cada uma das secretarias. Não tratei diretamente com ele sobre a composição do governo, mas sei que ele ainda está estudando muitos nomes. De confirmado mesmo, somos eu, o Ananias e o Luiz Sampaio.
E como está sendo sua preparação para assumir o Desenvolvimento? E quais são seus planos para esta área?
Por enquanto e até dezembro, vai ser muito corrido. Ainda estou aqui na empresa, cuidando da área de exportações e tenho que me dividir com os compromissos políticos. Já comecei a trabalhar. Já conversei com o Dorival Mourão, presidente da Acif (Associação do Comércio e da Indústria de Franca). Também já falei com o atual secretário, Carlos Arantes. Estou tomando conhecimento das coisas e me informando. Sobre meus planos. São muitos. Essa é uma área que conheço bastante e na qual tenho muitos contatos. O Paulo Skaf, da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), foi um dos meus maiores apoiadores e acredito que me ajudará bastante. Tenho muitos desafios pela frente. Um deles que tem tirado o meu sono é a organização do Carnaval. Sempre achei que ela fosse uma tarefa da área de cultura, mas aqui em Franca é o Desenvolvimento quem organiza e faltam apenas poucos meses. A Expoagro é outro desafio. Não podemos deixar a organização para depois. É preciso começar a trabalhar logo. Também quero trazer novas empresas para a cidade, principalmente ligadas ao café, que aqui na região é responsável pela movimentação de mais de R$ 1,4 bilhão por ano. Quero trazer empresas de maquinário, quero desenvolver cursos profissionais voltados a este mercado. Nossa, tenho muitos planos e muita vontade de trabalhar duro.
E como será seu futuro? Pretende participar de novas eleições?
Como entrei na política agora, de uma forma muito rápida e tumultuada, ainda não pude parar para pensar no futuro. Quando decidi aceitar o convite feito pelo Gilson, sabia que estaria pondo o pé definitivamente na política. E este é um caminho sem volta. Quero, sim, participar de outras eleições. Por que não? Ainda pretendo ser a primeira mulher a ser prefeita de Franca. Não desisti, não. Esse é o sonho do meu pai e já disse a ele que vou realizá-lo.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.