Dormindo juntas, ela e sua avó, na cama alta, cobertas com a colcha de retalhos, de repente ela ouvia um “toc-toc, toc-toc”. Abria os olhos instantaneamente. – “Ah, são os cavalos do leiteiro. O barulho dos cascos dos seus cavalos” – dizia sua avó.
A menina sorria intimamente. Ela já sabia e era isto mesmo que gostava de ouvir. O som diário dos cascos dos cavalos nas pedras de paralelepípedo. Que música para os ouvidos!
“Toc-toc, toc-toc”. Agora o leiteiro parava na casa próxima à Jandira, estava descendo, pegando os litros de leite, ouvia o barulho ao colocá-los junto ao portão e a batidinha no mesmo para alertar os dorminhocos.
Toc-toc, lá ia para a próxima casa. A menina se aconchegava aos lençóis e perguntava meio dormindo: - “Vó, ele não vai deixar o nosso leite?” E avó -: “ Vai sim, é que hoje ele trouxe poucos vidros”.
Tudo bem, pensava a garota, só o “toc-toc” já valia muito a pena.
Toc-toc, toc-toc, a música do leiteiro era um prazer indescritível para a garota! Era mágica! Na fazenda onde morava, não havia cavaleiros com vidros de leite. Mas na cidade sim! “E beleza”! - pensava a menina. Virava para o canto já com sono.
Horas depois, que não conseguia precisar quantas, vinha o padeiro. Toc-toc!
Este batia na janela da avó! “Olha o pão”! A avó dizia aconchegando o corpo junto às cobertas ao lado da neta, - ”Não se preocupe, ninguém vai bulir no nosso pão”.
A menina não se continha, jogava as cobertas para fora e ia correndo ver o que tinha na porta.
Avó já acordada a chamava para lavar o rosto, escovar os dentes.
Adorava este momento também, quando sentia o cheiro do sabonete, misto de flores antigas com creme rosa, a água que corria na bacia cromada, diferente do que tinha na fazenda.
“Que delicia! Que cheiro bom!” – dizia
Cafezinho quente, pãozinho que fazia “crec-crec”, a avó sorrindo.
As cortinas de chita balançavam ao vento, o abacateiro tremulava, elas riam comendo... A avó dizia, “depois vou te contar a estória daquela colcha de retalhos”. “Cada pedacinho de pano tem uma estória.” A menina ria de prazer, esperando contos mágicos.
Hoje adulta, quando ouve um “toc-toc”, vislumbra um a colcha de retalhos ou sente um cheiro similar de sabonete, seu coração atravessa o tempo e volta feliz, maravilhado para aquela casa da rua de paralelepípedos.
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