O amor, como uma emoção livre de qualquer fundamento lógico, fruto de uma mágica, acarreta inevitáveis inconvenientes, pois a idealização inicial se desfaz. Como disse o psiquiatra Flávio Gikovate, em uma publicação, antes de falecer recentemente, é preciso o aval da razão, depois o sentimental e finalmente o erótico. Os apaixonados não pensam com a razão, mas com o coração.
Nos idos anos 80, na flor dos dezessete anos, Leninha amou, perdidamente, um jovem, filho único de abastada família de uma cidade do interior de São Paulo. Em meio aos ardorosos encontros ele sussurrava em seus ouvidos que queria um filho deles. Quando aconteceu, ela ficou radiante, vivia só com a mãe, e pensou que formariam uma família, mas o Sr. Júlio afirmou que jamais Julinho se casaria com uma moça sem estudos e sem recursos financeiros. A criança e a mãe continuariam em casa da avó, às expensas do pai. Como o amasse muito, com toda força dos seus sentimentos, aceitou. Após alguns anos sua mãe faleceu, precocemente, e ela com o filhinho mudaram-se para um apartamento dele, confortável e aconchegante. Um segundo filho nasceu e Leninha pensou que, talvez, pudesse realizar seu sonho de casar-se, vestir-se de noiva, com um lindo buquê de rosas, um véu deslizando pela igreja toda florida...Quando ousou expressar seu desejo, viu-se frustrada mais uma vez. Ele não podia, uma vez que estava entrosado nos promissores empreendimentos do pai, assumindo mais funções e trabalhos.
Leninha intuía que as ilusões e desencantos tendiam a ser frequentes, aquele amor ilimitado começava a apresentar frestas. Não se reconhecia como a moça ingênua e romântica que fora.
E os meninos cresceram, foram estudar em cidades distantes e após a graduação especializar-se-iam no exterior. Precisariam ser preparados para administrar os bens do avô. Leninha desesperou-se, sem família, sem os filhos, sem uma casa, sem profissão, sem dinheiro... Julinho pouco podia fazer, dependente do pai, tornara-se fraco e inseguro. Recorreu ao sogro e, este, impiedoso, não a reconheceu como mulher de seu filho. Aos netos que tinham seu nome ele deixaria sua fortuna, para ela nada. Leninha, desta vez, usou a razão, procurou se qualificar e munida do certificado de segundo grau, foi estudar em uma faculdade, com uma pequena ajuda de Julinho. Ainda o amava e o tratava com carinho. Antes de se formar, ela já estagiava na própria escola e saiu com um ótimo emprego. Aos cinquenta anos, era responsável por uma grande firma.
Seu sogro faleceu, Julinho, cansado, limitado pelos excessos do álcool, entregou as empresas para os filhos e propôs-lhe casamento, ao que ela respondeu:
---Agora não!
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