A vida de uma mulher dedicada às pessoas mais necessitadas, que fornecia ajuda constante a igrejas e cuidava de seus três filhos e oito netos foi interrompida após uma verdadeira via-crúcis para conseguir ser atendida na Santa Casa de Franca. A advogada aposentada Maria José Alves de Almeida, de 69 anos, morreu no dia 29 de outubro, três dias depois de ser picada por uma cobra jararaca e passar por quatro unidades de saúde da cidade, incluindo o hospital. Para a família, a morte aconteceu por omissão de socorro. Raciocínio semelhante tem a Polícia Civil, que investiga o caso como homicídio.
A idosa foi picada pela cobra em sua fazenda, na rodovia Ronan Rocha, na noite do dia 28 de outubro. “Sabendo que apenas a Santa Casa de Franca fornece o soro antiofídico, levei minha mulher até lá. Levei a cobra, morta, em um saco, para que eles soubessem qual antídoto dar. A enfermeira-chefe disse que, por termos convênio no Hospital Regional, deveríamos ir lá ou no Hospital do Coração, pois não nos atenderiam na Santa Casa. Fomos até o do Coração com a promessa de que mandariam o soro para lá, mas isso não ocorreu”, disse o juiz aposentado Nilton Messias de Almeida, viúvo de Maria José.
Segundo o marido, a recomendação dada teria sido de procurar o Pronto-socorro “Álvaro Azzuz”, pois o soro seria enviado para o local. “Minha mulher estava piorando e começou a sangrar pelos olhos, nariz e boca em decorrência do veneno da cobra. Ficamos mais de uma hora esperando até que a ambulância a levasse para a Santa Casa de novo.” De volta ao hospital, a idosa teria sido atendida pelo médico Henrique Pedigoni, que não a teria examinado e socorrido na primeira tentativa.
A saga de sofrimento de Maria José não teria terminado ali. De acordo com Almeida, o médico só falou com ele quando foi aplicar o soro e alegou falta de vagas para justificar o fato de a mulher não ter sido atendida na primeira vez. “Já era tarde. Ela já estava em estado grave e me comunicaram que ela seria entubada e levada para a UTI do Regional, em nosso convênio. Por volta de 4 horas do dia 27, foi transferida”, contou o marido.
Depois de passar dois dias internada, ainda segundo Almeida, Maria José teve a morte cerebral constatada. Às 22 horas do dia 29 de outubro, a família foi comunicada de sua morte.
Diante disso, o idoso procurou o 1º Distrito Policial e denunciou a omissão de socorro da Santa Casa na primeira vez que Maria José foi levada ao hospital. “Preciso descobrir por que não deram o soro e agiram dessa forma. As respostas são necessárias e uma forma de que isso não aconteça com outras pessoas. Não se pode brincar com vidas.”
A denúncia
Assim que ouviu o relato de Almeida, o delegado Luís Carlos da Silva, titular do 1º DP, registrou um boletim de ocorrência de morte suspeita e instaurou inquérito de homicídio. “Estamos diante de um caso absurdo de omissão de socorro e homicídio. Apenas a Santa Casa poderia fornecer o antídoto. Se isso tivesse sido feito na primeira vez que o marido procurou ajuda, ela estaria viva”, disse Silva.
O outro lado
Via assessoria, a Secretaria Municipal de Saúde confirmou que Maria José recebeu atendimento no Pronto-socorro “Álvaro Azzuz” e que, lá, teria sido atendida imediatamente. “Esta paciente foi atendida, estabilizada e regulada para a ser levada à Santa Casa, que é quem tem atribuição de fazer a aplicação do soro antiofídico.”
Em nota, a assessoria de comunicação da Santa Casa responsabilizou o marido de Maria José. Informou que a Secretaria Estadual de Saúde possui locais que guardam os soros para viabilizar o atendimento para os casos com animais peçonhentos e que o local mais indicado seria o hospital de Patrocínio Paulista. “No entanto, o acompanhante optou por buscar atendimento na Santa Casa de Franca, tendo sido orientado a procurar o Hospital do Coração para que fosse ministrado o soro antiofídico em função de melhores condições operacionais naquele momento.”
Ainda segundo o hospital, Nilton entrou no hospital “limitando-se a perguntar na recepção se o soro havia chegado, não apresentando a paciente nem aguardando o acolhimento”.
O comunicado informou ainda que duas horas depois, a Cross (Central de Regulação de Pacientes) regulou Maria José, que estava no PS Municipal, levando-a até a Santa Casa de novo, “quando foi prontamente atendida”.
O médico acusado pela família de não atender a vítima foi procurado por telefone e nas redes sociais para dar sua versão sobre o caso, mas não respondeu aos contatos da reportagem.
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Em nota, a assessoria de comunicação da Santa Casa responsabilizou o marido de Maria José - Foto: William Borges/Comércio da Franca
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