Eram 16 horas da tarde da última quinta-feira, quando o ex-secretário de Finanças, Sebastião Ananias nos recebeu em sua casa, no Jardim América. Ele havia acabado de se reunir com o prefeito eleito Gilson de Souza (DEM) para definir seu nome como o coordenador de todo o processo de transição.
Ananias é político experiente. Já ocupou diversos cargos na administração pública desde que entrou para a política, em 1976. Foi candidato a vice-prefeito duas vezes (perdeu em ambas) e ganhou maior notoriedade como o secretário de Finanças do governo Sidnei Rocha (PSDB), o qual ele deixou depois de perder às prévias do partido que definiram como candidato, à época, o atual prefeito Alexandre Ferreira.
Apesar de afirmar não guardar mágoa e não ter ressentimentos, Ananias em mais de duas horas de conversa em nenhum momento citou o nome de Sidnei, a quem ele se refere como “o candidato do PSDB”.
Ananias deve ser o homem forte do governo Gilson de Souza que toma posse em 1º de janeiro. Segundo o próprio Ananias, será dele todas as decisões referentes a dinheiro. “O Gilson me disse ‘você cuida de tudo que eu vou fazer política’”, disse. Ananias também será o responsável por todo o processo de transição.
Durante a entrevista, Ananias evitou fazer críticas a Gilson de Souza, a quem ele elogia a todo minuto, mas fez questão de frisar que o primeiro ano de governo não será fácil e que, para realizar as propostas feitas durante a campanha, será necessário muita negociação.
O senhor já havia anunciado seu afastamento da política. Agora, depois de quatro anos de seu distanciamento, seu nome é anunciado como secretário de Finanças. Por que o senhor decidiu voltar?
Para ser muito honesto, não decidi. O que houve é que quando deixei a Prefeitura de Franca, em setembro de 2012, depois daquele episódio das prévias do PSDB, meu único pedido àqueles que faziam parte do então governo era de que não tocassem mais em meu nome. Logo depois, acabei indo para Orlândia e fiquei lá até 31 de março deste ano. Quando sai de lá, fui cuidar das minhas fazendas de café. Eu pensei: “já fiz minha parte, já ajudei no que era preciso”. Foram 23 anos da minha vida dedicado ao serviço público. Estava tranquilo e longe de todo esse processo eleitoral, mas aí o candidato do PSDB, em uma entrevista, fez uma abordagem falando sobre o meu nome. Eu nunca deixei de ser amigo dele. A gente se distanciou mas nunca fui inimigo de ninguém. Fiquei irritado com o que ele fez, porque rompia um pedido meu que até então vinha sendo respeitado. Então mandei uma mensagem ao candidato expondo minha indignação, mas não houve resposta. Achei isso uma falta de consideração. Aí foi que comecei a me lembrar da figura do Gilson. Quando ele foi vereador pela primeira vez, eu era secretário e éramos próximos porque ele sempre ia me pedir ajuda. E pensei: o que me custa dar uma mãozinha pro Gilson agora? Então, decidi gravar um vídeo declarando meu apoio. Não tinha nada ainda de compromisso. Era só um vídeo de apoio mesmo. Mas ele ganhou uma repercussão que não esperava e aí entrei na campanha do Gilson. E me entusiasmei com o ambiente que eu encontrei. Era uma campanha muito pobre em termos de recursos financeiros, mas cheia de boa vontade, de sonhos e de vontade de fazer a diferença na vida das pessoas.
E como o senhor viu a vitória de Gilson de Souza, já que no primeiro turno ele tinha apenas 39 mil votos e acabou passando na frente de Sidnei Rocha (PSDB) e vencendo com folga?
Foi uma vitória acachapante (esmagadora). Acho que a candidatura do PSDB arrogou para si como proprietária de todos os votos francanos. Mas não é bem assim. O candidato do PSDB achou que não precisava fazer campanha e olhar nos olhos do povo, que ganharia a eleição trancando em uma sala com ar condicionado, fumando charuto e bebendo whisky. Mas ele não percebeu que ele tinha uma grande rejeição. Analisando os números do primeiro turno, a rejeição chegou a 56%. Não tem como ganhar a eleição com essa rejeição se não for para a rua. Para piorar, ainda houve aquele episódio do vídeo contra o atual prefeito. Achei aquilo de uma idiotice sem tamanho. E evidenciou a arrogância do “eu já ganhei”. E aí veio uma onda brava, com o pronunciamento do atual prefeito, que para mim, tirando a parte que fala da saúde, foi firme, direto e sem rodeios. E acabou desencadeando um processo de críticas e desgaste. E, para piorar, depois divulgou uma foto com seu ex-vice-prefeito, Ary Baleiro, que todo mundo sabe que ele sempre desprezou, que foi incapaz de dizer um muito obrigado, e vai e divulga a foto sem autorização. Para mim, isso é farsa. Essas coisas acabaram acordando a população, que ponderou e viu que não era isso que queriam à frente da cidade. Mas também teve muito peso o fato do Gilson ser como é. O Gilson para mim simboliza aquele ditado “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”. Ele é um cidadão consciente da responsabilidade que tem, desejoso de fazer um governo que não escandalize a população e mostre a ela que ela tem que ter voz na administração da cidade. Ele foi vereador, foi três vezes deputado, ele não é um Zé Ninguém. Ninguém chega onde ele chegou se não tiver competência e habilidade política. Ninguém chega a 56% dos votos se não conseguir adesão.
O senhor falou sobre adesão. O senhor não acha que muitos dos votos recebidos pelo Gilson foram, na verdade, votos contra o Sidnei Rocha e não a favor das propostas do Gilson?
Teve, sim, isso que você falou, mas não acho que tenha sido de grande expressão. Não acho que os votos contra Sidnei seriam suficientes para eleger o Gilson se ele já não fosse bem votado. O povo em Franca nestas eleições traçou duas palavras para decidir o voto: humildade e arrogância.
Durante essa campanha, muitos acusaram o Gilson de Souza de ser populista, de prometer coisas que não poderia cumprir. Para citar alguns exemplos: o famoso hospital das clínicas, a passagem de ônibus a R$ 1, o hospital veterinário, entre outras propostas. O senhor, que já comandou as finanças da Prefeitura e sabe das dificuldades de recursos, acredita que essas propostas são de fato viáveis? Essas propostas conseguem ser concretizadas em apenas quatro anos de governo?
Existe uma expressão no direito brasileiro que diz que “aquilo que as partes ajustam entre si tem força de lei”. Coloco a questão da Empresa São José aí. Se a empresa resolver transportar as pessoas de graça, ninguém vai impedir. Se ela aceitar fazer uma experiência no transporte público em determinados dias a um preço diferenciado, ninguém vai impedir. Aí, ela e a população é que vão analisar o resultado se foi bom, se está dentro do que era planejado, se vale a pena repetir a experiência. Não vejo essa proposta do Gilson como um sonho, não. Não gosto da palavra impossível. Prefiro usar o termo ‘discutível’ quando vamos falar de algo mais difícil de alcançar. A possibilidade vai depender da experiência. Quanto às demais questões, o Gilson não mentiu, não enganou ninguém. São coisas que são desejo dele. Não posso dizer que ele não vai conseguir. Quem pensa pequeno não consegue sair da bolinha de gude.
Mas voltando à questão do ônibus, existe um contrato em vigor. A São José alega ser deficitária. A Prefeitura vai subsidiar o transporte com a tarifa neste valor? Há margem no orçamento do município para isso?
A Empresa São José não está aqui por vontade do governo que a contratou. Ela está aqui porque venceu um processo de licitação. Existe um contrato sendo cumprido. E é preciso lembrar e ressaltar que esse contrato conta com inúmeras gratuidades. Essas gratuidades em Franca são um ônus. Não podemos mexer neste quesito porque estaríamos alterando as condições do edital. Mas se conseguirmos convencer a empresa a fazer essa experiência, baseado naquele princípio do direito que eu citei, a São José pode sim aceitar uma proposta da Prefeitura para oferecer um benefício melhor ao cidadão. É tudo uma questão de negociação.
O orçamento previsto para o ano que vem na Prefeitura é de R$ 702 milhões. O atual prefeito disse que deve deixar em caixa entre R$ 35 e R$ 40 milhões. Com esses valores, como o senhor acha que será o primeiro ano do governo Gilson de Souza?
Se esses números que você citou forem de fato reais, isso indica que a Prefeitura trabalhou deficitária durante esses últimos quatro anos. Isso porque ao sair, o ex-prefeito deixou em caixa R$ 17 milhões relativos ao QESE (um fundo de educação) e outros R$ 47 milhões na conta corrente, o que significa R$ 64 milhões em caixa. Se agora tivermos apenas R$35 ou R$ 40 milhões, significa que a administração precisou usar os outros R$ 24 milhões porque provavelmente teve gastos maiores do que sua arrecadação. Então, o que vamos enfrentar é uma prefeitura cujas receitas não estão fazendo frente às suas despesas. Mas não culpo o atual prefeito ou sua equipe. É um cenário nacional. Agora vamos lutar para poder economizar. Melhorar o aproveitamento dos bens da Prefeitura. Porque achamos que vamos enfrentar dificuldades também nos repasses estaduais e federais. Não podemos vender ilusão. Teremos um ano difícil, de muitos ajustes para diminuir gastos, mas podem ter certeza que não atingiremos a saúde, educação e assistência social.
E como está a preparação para a transição? Já há alguma definição sobre a equipe?
Já está acertado que lá para o dia 15 de novembro vamos nos reunir para definir detalhes desse processo de transição. O coordenador de todo o processo de transição de Governo serei eu. O Gilson me incumbiu de cuidar de tudo para que a hora que a gente for de fato começar a transição estejamos com uma equipe técnica muito bem formada. O Gilson não quer nenhum agente político na transição. A equipe será toda formada por técnicos, gente com conhecimento da administração pública. Ainda não pensei nos nomes. Mas não trarei ninguém de fora também. Vou priorizar os servidores públicos. Só fiz um pedido ao Gilson: que ele me deixe escolher os ocupantes de duas secretarias. Uma é a de Finanças, que ele mesmo já disse que serei eu, a outra seria a de Governo ou alguma equivalente. Ele concordou. Agora vamos acertando os nomes e as arestas aos poucos.
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