José Russo, de atalaia


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Franca deve muito à comunidade espírita, especialmente pela atenção a menos favorecidos. É, aliás, fala geral: ‘espíritas fazem mesmo’, e sem esperar reconhecimento’. O anonimato é, quase sempre, o avental de trabalho que usam. Felipe Salomão, diretor do Instituto de Divulgação Espírita de Franca, e articulista deste Comércio, publicou em novembro de 2010, reconhecimento a alguns luminares do espiritismo francano. Falou de José Marques Garcia, criador do Asilo Allan Kardec — que ele abriu para dar amparo a doentes mentais que perambulavam pelas ruas constrangendo a sociedade e suas próprias famílias. Fez às próprias expensas. Com o passar dos anos, sua obra tornou-se o respeitado Hospital Psiquiátrico Allan Kardec, hoje sob o comando do não menos idealista, e espírita, Wanderley Cintra Ferreira.
 
Obra crescendo,  convidou José Russo, amigo nascido em Monte Santo de Minas, para presidir a causa. A escolha se revelou acertada. Russo, além de decidar-se de corpo e alma ao ‘Allan Kardec’, encontrou tempo para criar a Fundação Espírita Judas Iscariotes, hoje o  Lar de Ofélia. Atento cronista do cotidiano, também escreveu no Comércio  e o fez na forma de interessantes reflexões sobre a sociedade francana. Em novembro de 1966, pós Dia de Finados, brindou leitores com o texto que hoje reproduzo. Constate que problemas daqueles tempos continuam ai, sem solução. 
 
DIA DE FINADOS DE 1966: ‘Chegamos ao cemitério às 14 horas. Romaria de visitantes espalhava-se por toda a Cidade Silenciosa. (Após percorrer) ruas e vielas da velha necrópole, estacionamos à sombra de cipreste e ficamos observando. Desfilaram homens, mulheres e crianças, cada qual demandando a derradeira morada de seus entes amados. Flores, coroas, velas simbolizando a luz espiritual das almas em regiões bemaventuradas, eram depositados com fé e respeito sobre túmulos. Notamos semblantes conformados, quase todos (...) alegres, como veranistas em local impróprio para lágrimas.
 
Durante o tempo de atalaia, não vimos uma pessoa sequer chorando ou limpando os olhos. Anotamos de parte a chegada de mais um hóspede, com natural cortejo de parentes e amigos. Dirigiu-se aos fundos despovoados, onde parentes só podem localizar o morto por pequena haste de ferro espetando placa numerada. Encoberto pelo anonimato, o defunto perde até o nome, como acontece com quem vive rosário de misérias, párias das sociedades que não deixaram na lembrança nem uma saudade! Estranhos na vida, esquecidos na morte!
 
Pelo portão lateral, já na rua, o quadro sempre novo da mendicância, rolo de notas em uma das mãos, e a outra livre, estendida aos retirantes. Por curiosidade, contamos o grupo, entre homens e mulheres, a maior parte de estranhos na cidade: 21 pessoas, aproveitando a morte para manter a vida. Com um velho preto, num carrinho de rodas, dinheiro em ambas as mãos, provocamos diálogo: então, meu velho, como vai a féria? ‘Está boa, o senhor não vê que no dia dos mortos a gente vive à custa deles? Hoje o povo tem o coração mole, dá dinheiro. De certo é promessa ou tristeza que leva na alma.’
 
De um lado e doutro da entrada do cemitério, mais pedintes; oito, e dois menores. A mulher andrajosa, higiene há tempo desaparecida, indagamos como ia de negócio. Divagando como que aturdida com a legião de visitantes, disse em voz lenta e fanhosa: ‘Vai bem, é pena que essa festa não seja muitas vezes por ano. A gente tem que trabalhar depressa; rende para passar um dia à custa dos mortos. Tivesse muitos dias de finados, daria até para comprar cômodo de barro.’ Seguimos nosso caminho e deixamos os visitantes cumprirem sua devoção, e os vivos, mortos física e moralmente, viverem alguns dias ou horas a mais à custa dos mortos!’
 
 
Luiz Neto (de atalaia, de vigia, ‘de olho’)
jornalista, editor de Opinião - luizneto@comerciodafranca.com.br
 

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