Muitas vezes sou abordada por pais que me indagam sobre questão preocupante em tempos de revolução digital. Como estimular uma criança a desenvolver o prazer de ler de maneira que crie um hábito para toda a vida? De cara já aviso: não basta colocar um livro, por mais bonito que seja, nas mãos infantis. Formar um leitor pede bem mais que isso. Mas é um investimento precioso que adultos podem ( e devem) fazer pela qualidade de vida de seus filhos.
Escuto a maioria falando em aplicar na poupança, comprar imóvel, arriscar na bolsa, abrir conta ou reunir bens para garantir o futuro das crianças. Ouço bem poucos comentando outros tipos de investimento, aqueles que podem se tornar determinantes na expansão da vida enquanto processo de descobertas contínuas, aprendizados constantes, capacidade de sonhar, relacionamentos mais verdadeiros, até mesmo percepção da existência com sua finitude e dos seres humanos como complexidades. Formar hábito de leitura é garantir a uma criança um tesouro inesgotável por toda vida. Porque ler é um prazer, um jeito de viajar sem se deslocar no espaço, uma forma de nunca estar só, um desvelar do outro que pode ser parecido ou muito diferente de nós. A literatura, assim como o amor, está entre as experiências mais vivas e mais elevadas que se podem experimentar.
Pra começo de conversa, não é porque a criança já está completamente alfabetizada que ela lerá sozinha. A presença da mãe, do pai, de um adulto que lhe seja emocionalmente importante é fundamental nos primeiros anos. Quem assistiu ao filme ET- O Extraterrestre, se lembrará da cena em que a mãe lê para a filha a história de Peter Pan, o clássico de James Barrie. Elas falam sobre fadas e batem palmas, num instante de grande intimidade e alegria, derivado não só da narrativa, mas do vínculo que ambas estão ali reavivando diante da fantasia, da obra de arte, da beleza. Spielberg, leitor voraz, transforma a cena em lindo elogio à literatura. Leia com seu filho, alternando páginas, parágrafos ou frases. Este momento feliz pode representar uma das sementes na formação do hábito. Humanos tendem a repetir o que lhes dá prazer.
Mostre à criança que muitas histórias contadas em desenhos ou filmes que ela adora partem de livros. Cinderela, Branca de Neve, O patinho feio... Alice no País das Maravilhas, Harry Potter, Crônicas de Nárnia... Busque a versão original em livro levada para a tela. Faça a comparação do texto com as imagens. Que tal procurar as diferenças entre a Cinderela de Perrault e a de Disney? Será um compartilhamento enriquecedor, capaz de despertar muita curiosidade sobre o espaço de criação.
Comente o que lê, deixe que a criança opine e anote num caderno as observações dela. Podem ser umas palavras, umas frases, apenas um desenho que reproduza a cena de que ela mais gostou. Se ela já escreve, permita que o faça, se desejar. Este poderá ser o caderno para registrar todas as leituras feitas ao longo de um ano. No futuro, vocês voltarão a ele com emoção. Será mais um “souvenir” da infância que passa tão rápido.
Ler também é escrever. Corresponda-se com seu filho. Reserve outro caderninho para anotações. À noite, antes que durma, sugira que lhe escreva um bilhete. Nele podem ser narradas as principais brincadeiras do dia, os desejos, os medos, as dúvidas, algo acontecido na escola. Não precisa ser nada extenso ou complicado. Frases simples, mas genuínas, que você responderá da mesma forma assim que ele estiver dormindo e serão encontradas na manhã seguinte. Você vai encorajar a escrita e a leitura, além de criar com seu filho mais um tipo de comunicação. Parece que as crianças, em algumas circunstâncias, conseguem falar mais ao papel que olhando para o rosto dos pais. Por experiência própria falo disso: há algumas semanas, minha nora Milena me mostrou um pedido de desculpas que João, 6 anos, havia lhe deixado por escrito ao lado da lição (a custo) completada.
Leve as crianças para atividades onde o livro esteja presente. Livrarias, bancas de revistas, sebos, rodas de leitura, contação de história, feiras de livro, roda-livro... Franca oferece todas essas atividades; fique atenta à agenda cultural. E deixe que os pequenos escolham o que ler, supervisionando de forma discreta. Para eles, 50 tons de cinza é grego, pode crer. A criança corre atrás de seus interesses mais intrínsecos. Se ela gosta de quadrinhos, que os leia, há autores excelentes. Não force a barra com livros bonitos que agradam ao seu padrão adulto mas a ela podem ser indiferentes.
Também não estipule um lugar da casa para ler. Leia no quarto, na sala, na cozinha, no banheiro. Leia fora de casa- num parque, em qualquer lugar público. Tomando café, comendo um pedaço de bolo, matando a fome com lanche, esperando o ônibus...
Sugira à criança, quando sentir que um livro a interessou muito, que escreva para o autor. A maioria dos escritores mantém sites na Internet. Uma busca simples no Google vai mostrar como é fácil encontrar o e-mail deles ou de suas editoras. Escritor responde sempre às crianças. Assim, o pequeno leitor verá que há gente de carne e osso atrás das histórias que lê. Tal iniciativa pode encorajá-lo a ir em busca de outros livros deste escritor. E de outros escritores.
A leitura é uma das atividades que nos define como seres humanos. Não podemos deixar que seja deixada de lado pelas crianças em função das novas (e menos exigentes) formas de entretenimento. Garanta a formação do hábito desde cedo. Sei que não é fácil. Exige tempo, disposição, vontade, otimismo e fé na palavra literária. Mas este é um investimento líquido e certo. Porque literatura é vida concentrada e servida ao leitor que abre um livro e mergulha na história que ali é contada; é fruto de milhões de experiências das quais não teríamos tempo de viver em sua mais ínfima parte; é oportunidade de ir além das possibilidades; é passaporte para desenvolver asas, voar e entender melhor o mundo, os humanos, e tudo o que nos rodeia.
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