Ao mesmo tempo em que o governo federal faz todos os esforços para dificultar ainda mais a concessão de benefícios trabalhistas para a maioria dos brasileiros, a nossa classe política continua sendo aquinhoada com aposentadorias e pensões com poucos anos de trabalho. Qualquer cidadão precisa contribuir por 30 ou 35 anos para se aposentar — e, se for aprovada a reforma pretendida pelo Planalto, terá que ter no mínimo 65 anos de idade. Os políticos brasileiros, porém, asseguram pensão especial com muito menos tempo. No Congresso Nacional, 242 deputados e senadores conseguiram a aposentadoria a partir de oito anos de contribuição. Para governadores da maioria dos Estados, basta um mandato de quatro anos. Em muitos casos, apenas alguns meses no cargo já garantem o privilégio. A despesa é paga pelo contribuinte.
O IPC (Instituto de Previdência dos Congressistas) foi extinto em 1999, mas continua a sangrar os cofres públicos. Tinha um enorme déficit atuarial — o popular rombo — quando foi liquidado. Como é costume no Brasil, a conta foi apresentada à ‘viúva’, a União. Nos últimos 16 anos, o instituto já consumiu R$ 2 bilhões. A cada quatro anos, surgem novos pensionistas. Ocorre que o parlamentar que estava no mandato no momento da extinção do IPC pode continuar contribuindo para o Plano de Seguridade Social dos Congressistas. Quando deixa o Congresso, pode pedir a aposentadoria pelas convidativas regras do IPC.
Enquanto qualquer outro brasileiro tem um teto para o valor da aposentadoria (pouco mais de R$ 4 mil), senadores, deputados e governadores podem acumular os benefícios. Um senador ou deputado consegue se aposentar com salário integral, que pode chegar a R$ 33,7 mil, e acumular com proventos de outras fontes, caso tenha sido governador, ministro do TCU (Tribunal de Contas da União) ou ocupante de cadeira no conselho de administração de qualquer estatal.
Na situação atual, o Brasil não pode viver uma situação onde a grande massa que produz, paga impostos e é taxada em qualquer coisa que compre ou serviço que utilize, seja obrigada a arcar com benefícios aos quais não tem acesso. Deve-se, sim, cobrar do governo federal uma ação no sentido de acabar com este tipo de distorção, principalmente ao se saber que há políticos que, com 16 anos ou menos de mandato, conseguem vencimentos integrais no momento em que deixam a vida pública. O sacrifício tem que ser de todos e não apenas da maioria dos brasileiros. É ela que paga este tipo de benefício e vê o seu dinheiro alimentando ainda a corrupção e as fraudes, o que torna sua vida muito mais difícil.
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