No próximo dia 31 de dezembro, o vereador e também delegado Daniel Radaeli (PMDB) se despede do Legislativo de Franca. Dos quinze vereadores da atual legislatura, ele foi o único a não disputar à reeleição. Está decepcionado com a política da cidade. “Quero me distanciar um pouco. Curtir mais minha família”, disse.
Ele recebeu o Comércio em sua sala na Delegacia Seccional na tarde da última quarta-feira. Falou sobre sua atuação como vereador, os desafios que enfrentou, os bastidores do poder e também sobre as expectativas para o futuro da cidade. “O ano que vem não será nada fácil. Independentemente de quem vencer, o próximo prefeito terá um primeiro ano difícil pela frente”, disse, sem revelar seu voto nestas eleições.
Radaeli ficou conhecido por seus posicionamentos duros. Ele foi o relator da CEI (Comissão Especial de Inquérito), que investigou os contratos assinados pela Prefeitura com o ICV (Instituto Ciências da Vida), empresa apontada como a mentora de um esquema de falsificação de fichas de atendimento e responsável pela contratação de falsos médicos. O relatório assinado por Radaeli apontou inúmeras irregularidades e serviu de base para a abertura do processo de cassação do mandato do prefeito Alexandre Ferreira (PSDB), do qual Radaeli foi presidente. Ao todo, foram mais de 10 meses de muito trabalho. Alexandre acabou absolvido por apenas um voto.
À época, Radaeli não quis dar entrevistas. Agora, quase três meses depois, resolveu falar sobre o episódio.
Faltam dois meses para que o senhor encerre seu mandato como vereador. Qual sua avaliação desses quatro últimos anos na Câmara Municipal?
Acho que desenvolvi um bom trabalho dentro daquilo que eu considero ser a função de um vereador. Trabalhei na fiscalização do Executivo e consegui não ser subjugado por outro poder. Realmente atuei na Câmara em defesa do cidadão. Fiz a fiscalização, criei projetos interessantes que agora serão acompanhados pelos novos vereadores eleitos, para que tenham a execução correta. Mas meu mandato também tem muitas frustrações. Foram muitas decepções.
Dos atuais vereadores, o senhor foi o único que decidiu não se candidatar e nesta eleição tem se mantido distante das campanhas. Essa decisão tem a ver com essas frustrações que o senhor cita?
Na verdade, estou mais que frustrado. Estou enojado. Essa é a palavra correta: enojado. Nosso sistema político é uma piada no Brasil. Não funciona. É muita politicagem. E para que todos entendam: politicagem é o conluio. Muitos cidadãos, quando se tornam vereadores, se esquecem de alguns princípios. Vou dar um exemplo. No Legislativo, formam-se bancadas e são elas que comandam a forma pela qual o vereador deve se posicionar sobre os projetos nas votações. Não concordo com isso. Acho que o vereador tem que votar pelos seus próprios princípios, por seu convencimento e sua razão. Embora a cadeira seja do partido, o voto é meu. E tenho que votar para o que for melhor para a população em geral e não para um grupo de interesses. Esse é o jogo que existe. Essa politicagem é o que me enoja. Puxar o saco ou agradar esse ou aquele para conseguir algum benefício que é direito da população não faz o meu perfil. Se é um direito, não devo ter que agradar para conseguir. É um direito. Mas infelizmente não funciona assim. Acho isso um absurdo.
Então o senhor está falando que essa politicagem de benefícios em troca de posicionamentos existe em Franca...
Nos bastidores, claro que existe. Há, sim, votações por bancada. Uma bancada que sempre vota a favor do prefeito e outra que é mais independente. Nunca me identifiquei com nenhuma das duas. Voto de acordo com a minha consciência. Com coerência. Outra coisa que também acontece aqui são as pegadinhas dos projetos em regime de urgência. O Executivo manda um projeto enorme e você não tem tempo nem de ler tudo. Aí, na entrelinha de um dos artigos, sempre tem algo esquisito. A chances de você errar votando um projeto desse tipo em regime de urgência é bem maior. Até quando estamos bem intencionados. Esses projetos escondem várias jogadas políticas que induzem até um vereador do bem a votar errado.
O senhor esteve na Câmara nestes últimos quatro anos, não daria para tentar mudar isso, fazer algo para que as coisas não fossem assim? Não é muito conformismo da sua parte?
Não é assim. Essa é uma questão cultural. Não se muda isso à fórceps (instrumento utilizado para auxiliar partos normais). A gente também tem que respeitar o modo de agir de cada um. Posso até discordar, dizer que quero mudanças, mas não posso obrigar o outro a mudar. Ele tem a livre consciência e a livre convicção. Não só em Franca, mas no Brasil. Muita coisa em política envolve o que eu chamo de cultura do medo, que é aquela que vem disfarçada de ameaça: “Olha, se vocês não aprovarem esse projeto, a administração não terá dinheiro para repassar para as creches”. “Olha, se vocês não aprovarem esse repasse, não vamos pagar os servidores”. Não se argumenta. Não se prova a necessidade. Querem a aprovação a toque de caixa. Sempre em regime de urgência. E aproveitam para colocar junto com medidas importantes coisas que não seriam aprovadas se fossem votadas separadamente. A relação entre o Legislativo e o Executivo é muito complicada. Para mim, a principal função do vereador é a fiscalizatória. Ele só deve fazer leis quando são essenciais para consertar ou agilizar determinado processo ou solução. Em Franca, não existia independência. Fui convidado para algumas reuniões com o Executivo, mas nem compareci porque sabia que não seria uma conversa de igual para igual. Fazia-se reuniões aqui só com a ala que sempre votava a favor do prefeito.
Como o senhor vê essa interferência tão direta do Executivo no trabalho do Legislativo?
Acho que tem que haver uma conversa entre os poderes, mas com bom senso. O Executivo tem que convencer o Legislativo a votar favorável com argumentos, com justificativas, sem forçar e não na negociata.
Que avaliação o senhor faz da atual Câmara Municipal?
Tivemos muitos problemas, mas acho que conseguimos evoluir. Eu daria nota 5. Passamos por situações complicadas com as manifestações públicas de 2013, que envolviam a tarifa do ônibus. Depois vieram as greves dos servidores que repercutiram na Câmara também. E por fim também teve o processo de cassação do prefeito. Acho que todos nós,vereadores, amadurecemos com esses episódios. Aprendemos a valorizar mais a opinião do cidadão. Agora precisamos evoluir. Precisamos de mais capacitação. Temos que ter preparação, capacidade de entendimento.
Nesta eleição, os eleitores decidiram fazer uma renovação. Dos 15 vereadores, nove são novatos. Como o senhor vê essa renovação?
Acho que isso foi resultado também de um amadurecimento do eleitor, que está cobrando mais dos políticos, acompanhando mais o trabalho do Legislativo. Como falei, não foram raras as vezes em que a população foi à Câmara mostrar seu posicionamento. Essa renovação é uma lição. Os vereadores têm que entender que cada uma das decisões que eles tomem tem consequências. A população não aceita mais a politicagem. O povo quer novos pensamentos. A política está mudando. E quer saber? A população está certa. Tem que renovar mesmo. Só que a renovação por si só não basta. É preciso que haja a cobrança, o acompanhamento e a fiscalização do trabalho daqueles que foram eleitos.
O senhor foi o relator da CEI que investigou os contratos da Prefeitura com o ICV, depois presidiu a Comissão Processante contra Alexandre Ferreira. Por conta disso, recebeu muitas críticas e chegou a ser comparado com um policial nazista. Esses fatos tiveram alguma influência na decisão de não se candidatar mais?
Não. Sou delegado de polícia há mais de 20 anos. Estou acostumado a sofrer esse tipo de ataque. Para mim, se tentou me atacar, acabou virando tema de piada. Em momento algum deixamos de cumprir a legalidade. Eu, durante todo o período, não dei entrevistas a respeito dos fatos que era para não atrapalhar as investigações e não emitir qualquer juízo de valor. Isso tudo por conta da ética. Como poderia dar uma entrevista falando de uma investigação que ainda não terminou? Não seria justo nem ético.
E como o senhor viu o resultado do processo de cassação de Alexandre Ferreira?
Em relação a isso, estou tranquilo. Nosso trabalho tem sido reconhecido pelo Tribunal de Contas do Estado, que julgou irregular o contrato com o ICV. Tem as ações impetradas pelo Ministério Público do Estado e pelo promotor de Justiça Paulo Borges, também com base no nosso trabalho. Então, pessoalmente, estou satisfeito. Agora, sobre o julgamento político, que aconteceu na Câmara, como eu disse naquele dia, cada qual é responsável pelo seu voto e responderá por ele amanhã.
Quais são seus planos?
Quero tirar um tempo para curtir mais minha família, descansar e me dedicar à carreira de delegado. Sobre a política, o futuro a Deus pertence. Neste momento, não quero ser candidato. Mas não posso dizer como será no futuro.
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