Carta ao futuro


| Tempo de leitura: 3 min
Comparemos nossa família com um jardim. Para que planta se erga do solo fecundo, se ramifique, dê bom fruto ou flor e, enfim, apareça aos olhos da natureza em formosura, cor e perfume inebriantes, é indispensável que um jardineiro a proteja. Tem ele que ser exigente e crítico. Como se forma uma bela planta? Preparando o canteiro, afofando-o, adubando para que mínimas gotinhas de água cheguem às tenras raízes, levando-lhes o indispensável à vida. Quando a planta brota, deve cercá-la de conforto e a ampare para que vendavais não a deitem de forma a partir sua débil haste. É necessário que a regue quotidianamente, que mantenha formigas e ervas que podem sufoca-la e destruí-la, bem longe. Com carinho e amor, a planta se erguerá robusta, mostrará flores e frutos, preencherá o ambiente de perfume, extasiando olhares às suas cores e formas gentis.
 
Jardineiro que assim não age, se desiludirá. Se à formação da vida de suas plantas não se dedicar atento e competente, o que não ocorrerá com criança que, sem seus jardineiros pai e mãe, enfrentará vendavais e más companhias, restando-lhe apenas descuido e despreocupação. Custa crer que hajam pais descurados que deixem crianças, qual flores melindrosas, desfolharem-se ao menor sopro contrário, sem qualquer arrimo ou conforto.
 
Famílias têm que encarar problemas da entrega dos filhos à vida em sociedade com critério e amor próprio. Família tem o triplo fim de educar os filhos para si, para a sociedade e para a Pátria. Há quem os deixe crescer à vontade, rédeas soltas, certas que o mundo ensinará, e que não há feridas que o tempo não cure, mas não. Criança é cego que precisa de guia. Deixem-nas à vontade e rara será a que chegará a se tornar cidadão forte, do bem. Maioria das vezes, antes de crescer e se tornar árvore rija e poderosa, encontrará o abismo dos vícios torpes e iníquos. 
 
Para integrar a boa sociedade, há que se dominar a única senha que faz alcançar esse bem: a educação. Que educação tem um viciado? Nenhuma. A família é a responsável, desde o nascimento do filho e até seu ingresso na sociedade, por educa-lo. Não há delegação.
 
E para com a Pátria? Trata-se de ensinar à criança o que é civismo. Para tanto, são indispensáveis de bons professores e informação, constante dos bons livros, muita informação. Sem civismo, não se forma a ideia de Pátria, esse ente que não se pode tocar e tão somente sentir, mas que é, em última instância, o estado de espírito que deve nos nortear na defesa dela como nosso último bastião.
 
Infelizmente, Pátria, para os brasileiros, tem sido utopia. Não se percebe a concretude dos frutos que desta terra brotam quase por dávida divina, onde tesouros que nunca têm fim quase desaparecem, usurpados. Nossa Pátria brasileira, mãe de todos nós, pode fenecer a qualquer tempo e não alcançar o fim sagrado que sempre lhe foi destinado se suas crianças, educadas e informadas tornadas adultos éticos, não se tornaram seus jardineiros. Vegetará em lugar de florir, e se tornará parasita porque verá prosperar a molecagem desenfreada. Acontecerá exatamente assim, se a família, primeira das virtudes indispensáveis, perder a sua força.’
 
CARTA AO FUTURO: O texto que você acaba de ser é síntese do artigo ‘Molecagem desenfreada’, assinado pelo jornalista Guedes Filho, de Mogi-Mirim, que colaborava com o Commércio da Franca em 1916. A sociedade da época privilegiava educação em família, escola por cultura; e respeito à Pátria. No mundo, o Brasil observava, lado de cá do Atlântico, recrudescimento da Primeira Guerra Mundial (julho de 1914 a novembro de 1928). Nosso jornal completava 16 meses de circulação. O texto serve como chacoalhão a todos nós deste tempo. Mas não só. Sem querer, Guedes escreveu carta ao futuro. Não consigo imaginá-lo sorrindo, tivesse vislumbrado que a família, sua considerada ‘primeira das virtudes indispensáveis’, perdeu mesmo sua força...
 
 
Luiz Neto
jornalista - luizneto@comerciodafranca.com.br
 
 

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários