‘Infelizmente, temos projetos políticos e não educacionais’


| Tempo de leitura: 6 min
Cotas, ensino público e privado, o futuro das universidades. Diretor do Novo Colégio, primeiro lugar em Franca pelo 7º ano consecutivo no Enem, falou sobre os desafios do ensino
Cotas, ensino público e privado, o futuro das universidades. Diretor do Novo Colégio, primeiro lugar em Franca pelo 7º ano consecutivo no Enem, falou sobre os desafios do ensino
A educação como paixão. Foi assim que o diretor do Novo Colégio, escola da rede privada de Franca, Fábio Willyan Grillo, de 37 anos, entrou para o mundo acadêmico. Filho de um delegado e uma dona de casa, o professor de biologia cresceu em Ribeirão Preto e veio para Franca há 13 anos após um convite para coordenar uma escola, também da rede privada, na cidade. Apenas um ano depois surgiu a oportunidade, com outros 13 professores, de concretizar um projeto que tinha como foco preparar os alunos para a vida e não somente para os vestibulares.
 
Deu certo e hoje ele coordena cerca de 440 alunos do ensino médio e dos cursinhos pré-vestibular. Pelo sétimo ano seguido, a escola conquistou o primeiro lugar da cidade no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e tem confirmado bons resultados nos vestibulares. Para o diretor, que formou-se em 2001 na Barão de Mauá, em Ribeirão Preto, a soma de três fatores é essencial para o sucesso do estudante: família, aluno e escola. 
 
Especialista em educação, Grillo falou ao Comércio sobre as principais diferenças entre o ensino público e privado; a necessidade de cotas públicas e que elas sejam realmente aproveitadas para garantir a igualdade; o futuro das universidades no país; as mudanças no ensino médio propostas pelo presidente Michel Temer (PMDB) e Enem. 
 
Nos últimos sete anos o Novo Colégio conquistou o primeiro lugar da cidade em resultados no Enem. Qual o segredo desse sucesso?
Na verdade não existe muito essa de segredo. É preciso uma junção de fatores, principalmente relacionados ao tripé que une família, aluno e escola. Se não existissem esses três pontos, isso não seria possível. Somados a isso, pelo menos na parte da escola, que é o que nos compete, é a dedicação, não só pela direção, mas por todos os educadores, do nosso trabalho que é coeso e sério, o que fortalece esse nosso pilar. A sequência de resultados positivos nos oferece a certeza de que estamos no caminho certo, isso com certeza é o principal. Motivação para continuarmos o trabalho que estamos fazendo.
 
Acredita que as notas do Enem representam fielmente a realidade do ensino?
Não. Acredito que o exame é apenas uma das avaliações de uma série de critérios que devem ser avaliados. Por isso, acho, sim, que é um retrato de um momento e uma situação, mas não deve ser o único resultado a ser analisado, por exemplo, quando um aluno ou pai vai escolher uma escola. Devem ser considerados também elementos como o tempo de bons resultados, não só nas avaliações, mas nas aprovações dela, a escola como um todo e como ela é sólida, ou seja, a formação que a escola se preocupa em oferecer aos alunos como um todo. 
 
Como docente, o que acha da disparidade dos resultados, tanto em vestibulares como no Enem, entre escolas públicas e privadas?
Esse é um problema bem complexo a ser trabalhado e resultado de uma somatória de valores. O aluno que tem um poder aquisitivo maior, hoje tem acesso a uma escola com uma carga horária maior e investimento mais efetivo na educação. Ao mesmo tempo não podemos descartar a estrutura familiar com a qual esse aluno conta, a possibilidade de poder se ausentar neste período e não ter que trabalhar se dedicando apenas aos estudos, o que não é a realidade da rede pública, onde muitos alunos precisam trabalhar para conseguir se manter e estudar ao mesmo tempo. Além disso, o investimento da escola, como já disse, que oferece o acesso a bons professores e a um bom material, tudo isso vai influenciar no aprendizado. É essa a diferença entre os dois ensinos, infelizmente. Gostaria que fosse diferente. 
 
Muitos especialistas criticam o método de pontuação do Enem que reúne tanto as escolas públicas como privadas já que, segundo eles, o ensino particular seria uma espécie de cursinho focado no exame. O que acha disso?
Acho que a rede privada não direciona apenas para o Enem, mas sim para todos os vestibulares, o ensino é mais forte. É indiscutível que as vagas serão sempre conquistadas pelos alunos que estarão melhor preparados em qualquer momento. Os resultados mostram apenas a realidade do ensino. Mudanças no Enem e em outros vestibulares acontecem e, mesmo assim, quem vai conseguir o melhor resultado serão aqueles que se dedicaram mais e estudaram mais. A falha que existe na rede pública é bem além do direcionamento ou não para o exame, por isso a diferença nas notas e nos resultados, que é visível tanto no exame como nas outras provas.
 
Qual a sua opinião sobre a reforma do ensino médio proposta pelo governo Temer?
Acho absurda. Impossível de ser colocada em prática, pelo menos nos termos que tomei conhecimento. Essa proposta diversificada, especialmente quando falamos de alunos que não têm ainda a maturidade necessária para decidir, é simplesmente impossível de colocar em prática. A escolha do aluno, nesta proposta de disciplinas já na segunda metade do ensino médio, acho isso impossível de ser administrado de uma boa forma, tanto pelas escolas privadas e muito menos pela escola pública, e o absurdo do aluno ter que opinar, já é tão difícil o aluno escolher no final do terceiro ano a profissão, ele passar a ter que escolher antes qual a área que quer seguir e quais as matérias que gostaria ou não de fazer, não acredito que isso tenha um bom resultado, poucos alunos têm condição hoje, nessa idade, de definir esse tipo de coisa.
 
Hoje observamos que universidades públicas têm passado por muitas dificuldades. O senhor acredita que, em um futuro próximo, os alunos que têm acesso a uma educação melhor passará a percorrer o caminho inverso e, ao contrário do que acontece hoje, procurar universidades particulares?
Isso é bem incerto. Atualmente as universidades particulares estão investindo muito e melhorando a sua qualidade de ensino. Já no caso das universidades públicas existe, e sem dúvida nenhuma isso é um fato, uma queda na qualidade. Acho que a diferença é feita então basicamente pelos alunos, pois os que estão nas públicas ainda são os mais preparados. Apesar disso, vemos que nos últimos anos essa mudança está efetivamente acontecendo. A evolução na qualidade do ensino privado tem nitidamente favorecido a migração dos alunos.
 
Sendo diretor de uma escola particular, qual sua opinião sobre as cotas?
Olha acho que a cota veio com uma proposta bacana e não pode hoje ser descartada, ela atende alguns pontos importantes e isso já foi inclusive comprovado. Acredito que ela veio e deveria servir como complemento, mas não que fosse permanente, mas, sim, servir para igualar o aluno a curto prazo, atendendo aquele projeto anterior de longo prazo, seja negro ou de baixa renda, com o cidadão de uma classe social mais alta.
 
O que o senhor acredita que falta para a educação do Brasil melhorar?
Falta muita coisa, mas sem dúvida nenhuma o principal é uma continuidade e uma seriedade maior nos projetos educacionais. Os projetos são muitos curtos e políticos, e não visam realmente melhorias na educação. Na realidade, eles querem resultados a curto prazo e sabemos que isso não funciona na prática. São necessários projetos a longo prazo, que vários governos dessem continuidade a eles, para que a coisa pudesse fluir da maneira adequada. Sabemos que investimento e verbas têm bastante para a educação pública, porém da forma que são empregados e quais objetivos querem alcançar, eu duvido um pouco. Infelizmente, hoje temos no Brasil projetos políticos e não educacionais.
 

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários