Juraci Lima, na ‘Acolhida’ do céu


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Juraci Lima foi inspetora de alunos nos áureos tempos do Instituto de Educação Estadual ‘Torquato Caleiro’. Concursada, ingressou no serviço público em 1959. Permaneceu na escola por 36 anos. Antes foi cabelereira e manicure, dona do salão ‘Santo Antônio’ estabelecido ao lado da Padaria ‘Minerva’, rua Júlio Cardoso, bem em frente ao Açougue do Teixeira, pai dos meus amigos Carlinhos e Toninho, que se tornaram médico competente e empresário vitorioso. Depois, mudou-se  para a esquina das ruas do Comércio e General Osório.
 
Cresci por ali, bairro Cidade Nova. Meu pai, Domingos, trabalhou na Casa Syria, de Bahij e Elias Anawatte, por 46 anos. Saia cedo e voltava bem tarde. Pela manhã eu ia à escola ‘Cel. Francisco Martins’ tomar puxões de orelha de minha sempre lembrada professora do primeiro ano, Noêmia Martha Bordignon. Devo-lhe o gosto por narrativas. À tarde, acompanhava minha mãe ao trabalho. O lugar era estreito mas muito comprido. Lá no fundo, fazia as lições do dia e sonhava meus futuros castelos. 
 
Lá na frente mamãe produzia penteados da época para grande clientela. Sempre achei que ela usava ‘bombril’ para dar forma às ‘construções’. Um dia, e lembro no ‘lombo’, peguei meu canudinho de metal — o mesmo que usava para ‘assoprar dardos de papel’ na direção de caixas de marimbondo — e assoprei um na direção de penteado que mamãe tinha levado bom tempo a erguer. 
 
Pontaria infalível, a cliente gritou atingida no coco. Minha mãe me olhou feíssimo e se dedicou a reconstruir sua obra-prima. Eu dei no pé, direto à casa de minha avó, segundo quarteirão da avenida Presidente Vargas, ao lado do Açougue do Mendonça, vizinha à residência de ‘seu’ Jacintho Ferraro. À tarde, o couro comeu. Não dei um pio. Raríssimas vezes meus pais me pegaram de jeito. Fui um feliz moleque educado em casa por pai a quem bastava franzir a sobrancelha para me colocar no trilho; e por mãe atenta até a meus pensamentos, mas capaz de bater na bunda se necessário. 
 
Aprendi com eles a respeitar hierarquia, a jamais lançar mão de nada que não fosse integralmente meu, a dizer ‘bença, pai; bença mãe, bença vovô, vovô’; a pedir desculpas quando fosse necessário, a pedir perdão fosse a quem fosse, se o erro fosse meu. Também, a dedicar-me à escola, para não ser ‘mais um analfabeto de leitura, contas e, principalmente, de informação, já que — ensinaram-me direitinho — quem não sabe de nada, morrerá seguidor, nunca será condutor’. 
 
Cheguei educado a d. Noêmia. Pensei que lá, com ela, estaria livre dos trancos que volta e meia eu levava por não ‘entender bem, ou fingir que não entendia’ o que meus pais me ensinavam, mas perdi a certeza quando Juraci e Domingos disseram a ela: ‘se José Luiz lhe der trabalho, está a senhora autorizada a corrigí-lo como o faríamos’. Já contei sobre minhas orelhas. 
 
Há zilhões de histórias minhas junto a meus pais, todas a orgulhar-me, e a eles, já que me diziam que eu também os orgulhava. Enquanto estavam comigo pude agradecer-lhes beijando-os e os abraçando-os muito. Dele, fiquei órfão em 4 de outubro de 1998. Ele tinha 93 anos. Morreu na véspera de uma eleição. 
 
De minha mãe, que me restava, fiquei só dia 30 de outubro deste ano, por coincidência, ante-véspera de outro dia de eleição. Ela estava com 90 anos, mas tinha a saúde de uma jovem. Todos os exames que fez, hospitalizada por haver fraturado o fêmur, comprovaram isso. Ainda assim, a perdi para o acamamento (existe a palavra?). Cama e idoso não combinam. 
 
Mas, fazer o que contra decisões de Deus? Certamente o Todo Poderoso a queria lá, perto dele, integrando sua ‘Pastoral da Acolhida’, ação que ela desenvolveu por anos, com grande competência e intensa responsabilidade, na Igreja de Nossa Senhora das Graças. 
 
Dia desses, mãe, chego aí. Comunique-se com papai e me aguardem junto aos outros ‘meus’, mulher, filhos, netos.
 
 
Luiz Neto
jornalista, editor de Opinião - luizneto@comerciodafranca.com.br
 

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