Num momento de crise, o alto custo do crédito no País está levando empresas e cidadãos a uma inadimplência que pode chegar a recorde. Apertando o cinto para pagar as taxas de juro escorchantes cobradas pelas instituições financeiras apenas no cartão de crédito e no cheque especial, trabalhadores e empresários acabam deixando outros compromissos de lado, aumentando a inadimplência também em outros setores. O efeito dominó acaba por aumentar ainda mais o número de devedores, dificultando o crédito e tornando proibitiva a busca de novos créditos.
De acordo com informações do BC (Banco Central), a taxa de juros do cheque especial subiu 2,7 pontos percentuais, de julho para agosto, e chegou a 321,1% ao ano, estabelecendo novo recorde na série histórica do BC, iniciada em julho de 1994. Neste ano, a taxa do cheque especial já subiu 34,1 pontos percentuais em relação a dezembro de 2015, quando estava em 287% ao ano. Outra taxa de juros alta é a do rotativo do cartão de crédito. Em agosto, na comparação com o mês anterior, houve alta de 3,5 pontos percentuais, com a taxa em 475,2% ao ano. Neste ano, essa taxa já subiu 43,8 pontos percentuais. O rotativo é o crédito tomado pelo consumidor quando paga menos que o valor integral da fatura do cartão.
Ao mesmo tempo, o endividamento das famílias brasileiras aumentou 0,2 ponto percentual de agosto para setembro deste ano, atingindo 58,2%. Os dados fazem parte da Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), divulgada pela CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo). Quase 10% das famílias brasileiras afirmavam em setembro que não tinham como pagar dívidas adquiridas com cheque pré-datado, cartão de crédito, cheque especial, carnê de loja, empréstimo pessoal, prestação de carro e seguro.
Como se pode ver, ainda estamos longe do fim do túnel. Empresários e trabalhadores se individam, as instituições financeiras — únicas que registram lucros neste período de crise em que vivemos — aumentam as taxas de juros, o que impede a busca por novos empréstimos. Tudo isso prejudica os esforços para a retomada do crescimento que, só com medidas do governo, fica cada vez mais difícil. Embora a atividade econômica tenha apresentado uma ligeira melhora, ainda estamos longe de conseguir dar a volta na crise e permitir que os investimentos sejam retomados, o que impactaria toda a cadeia econômica, principalmente no mercado de trabalho. Com os juros nas alturas, isto fica muito mais difícil.
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