Nos idos de 1970, Plínio de Arruda Sampaio, professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (Faesp) da Fundação Getúlio Vargas, convidou vários colegas para visitar o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e conhecer uma pessoa, que ele dizia ser especial. Não pude ir, mas alguns professores foram. Rafael Gentil, colega na FGV e meu sogro, acompanhou Plínio para conhecer a pessoa especial e encontrou o sr. Luiz Inácio da Silva, o “Lula”. Dias depois, Rafael me contava que ficara bem impressionado, pois encontrara uma pessoa que, com pouca escolaridade e sem preparo intelectual, se mostrava tão inteligente, objetivo e carregado de bons propósitos. Contou-me a respeito do PT, um partido recém-fundado por pessoas exponenciais, que pregavam (e muitos ainda pregam e praticam) a ética, a justiça, a liberdade, a democracia. Anos difíceis aqueles, pois a ditadura militar estava a todo vapor.
Sem dúvida, o PT prestou relevantes serviços ao País durante muitos anos, lutando pela liberdade de expressão, pela democracia absoluta, pela erradicação da pobreza e por melhores condições de vida aos brasileiros. Para mim, a ex-presidente Dilma Rousseff nunca representou o PT, pois não aprendeu a lição do seu professor Lula, segundo a qual governar um país democrata é desafio político que não permite soberba, autoritarismo e a não aceitação do contraditório. Egocêntrica, sempre fez questão de exibir seu poder. A verdade é que o PT abandonou os ideais de sua fundação, assim como quase todos os seus exponenciais fundadores abandonaram o PT. Passou-se, então, ao projeto de chegar ao poder a qualquer custo.
Cresceu, assim, no PT a ideia da “corrupção benigna”, aquela movida pela suposta nobre intenção, segundo a qual é permitido arrecadar recursos para a luta na defesa dos interesses dos menos favorecidos, ainda que de forma incorreta. Chegou-se ao absurdo de o PT diferenciar corrupção maligna da benigna. Ou seja, José Dirceu e André Vargas,condenados pela Justiça no processo do mensalão, teriam se beneficiado pessoalmente de atos de corrupção, ao passo que Vaccari Neto, por exemplo, não teria se beneficiado dos valores recebidos, uma vez que esses foram destinados ao PT, dentro do projeto de vencer eleições e obter poder.
Assim, chegamos à pergunta que está na mente de milhões de brasileiros: é bom ou ruim para o Brasil sepultar o PT? Deve-se criar um novo partido de esquerda com a abrangência do PT? Voltando aos anos 1970,entendo que é bom e necessário para o país ter um verdadeiro partido de esquerda, não esse PT que aí está. Nos países que lutam pela plena democracia e justiça social, sepultar a esquerda não é a solução. Creio que o PT deve voltar aos seus objetivos relevantes que nortearam sua fundação, sob pena de, com o tempo, ser rejeitado pela grande maioria dos brasileiros e acabar sepultado para sempre.
Antonio Jacinto Caleiro Palma
Professor da EAESP-FGV e presidente emérito do CIEE.
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