Uma vida pautada pela superação, metas e vitórias. Na infância, Guilherme Batista Silva teve que lidar com uma doença oftalmológica degenerativa chamada Stargardt. O problema foi descoberto aos oito anos, após sua mãe notar que ele assistia televisão muito próximo do aparelho. A falta de visão não impediu que Guilherme praticasse esporte e foi na natação que o francano passou a conhecer a vida de outra forma.
Guilherme superou dificuldades e barreiras vividas por um deficiente e se tornou uma das promessas da natação paralímpica brasileira. Com 17 anos de idade, o francano tinha como objetivo representar o país na Paralimpíada de 2016. Nesse período, Guilherme Batista foi convidado pelo técnico Alexandre Vieira para integrar a equipe de natação do Praia Clube, de Uberlândia.
Para aprimorar sua performance na piscina e se aproximar do sonho, o francano optou por aceitar o convite. Mesmo longe da família e distante de casa, Guilherme tratou de encontrar forças para seguir em busca do objetivo e superar os obstáculos. Foram quase três anos dedicados exclusivamente ao ciclo paralímpico para que o sonho se tornasse realidade. Com apenas 21 anos, Guilherme Batista conquistou índices para disputar três provas na Rio 2016: 100m peito, 50 a 100m livre.
“Concretizei um dos meus sonhos. É uma sensação indescritível, só quem participou sabe do que estou falando. Agora quero me preparar novamente para ir em busca de um novo objetivo, que é de disputar Paralimpíada de 2020 (em Tóquio) e trazer uma medalha”, disse.
Em sua primeira prova no Rio de Janeiro, Guilherme chegou a sonhar com um lugar no pódio ao conquistar vaga na final dos 100m peito, na categoria SB13 (para atletas com baixa visão entre 10 a 15%). O francano finalizou a prova na quinta colocação, com o tempo de 1min13s58. Nos 50 e 100m nado livre, Guilherme Batista não conseguiu classificação para as finais nas duas eliminatórias.
Junto com ídolos do esporte, Guilherme buscou aproveitar todo momento sua presença na Cidade Maravilhosa. Na rede social, em sua página do Facebook, ele registrou sua participação na cerimônia de abertura e encerramento da competição, com fotos e vídeos. Em um deles, Guilherme recebeu um beijo no rosto da cantora baiana Ivete Sangalo, no fechamento dos Jogos. “Brinco que fechei com chave de ouro minha participação no Rio. No encerramento de sua apresentação, a Ivete cumprimentou as pessoas para sair do palco. Quando notei que ela estava próxima, eu disse a ela: ‘muito obrigado’. Ela veio e me deu um beijo no rosto”, disse o nadador.
Com o término da Paralimpíada no último domingo, o francano aproveitou a semana de descanso para vir a Franca e aproveitar o tempo livre para visitar familiares e amigos. Nesta segunda-feira, Guilherme retorna para Uberlândia e volta à rotina de treinamentos com foco para disputa do Campeonato Brasileiro de Natação, no final deste ano.
Na infância, você carregava o sonho de representar o país em uma Paralimpíada. Como foi viver esse momento de participar dos Jogos no Rio de Janeiro e estar entre os melhores competidores do mundo?
Concretizei um dos meus sonhos. É uma sensação indescritível, só quem participou sabe do que estou falando. Uma pressão positiva, a torcida brasileira gritando e apoiando cada atleta. E para o atleta, você poder mostrar sua performance e superação ao público com certeza é imensurável. Meu próximo objetivo é participar novamente dos Jogos e trazer uma medalha. Acredito que com muito trabalho e empenho nesses próximos quatro anos, posso concretizar esse próximo objetivo.
A prova dos 100m peito se tornou uma de suas especialidades. Como foi classificar para final e ficar próximo da conquista da medalha (ele terminou em quinto lugar)?
Na verdade, comecei a nadar nos 50m e 100m livres e passei a me dedicar aos 100m peito. Meu resultado de quinta posição foi satisfatório, se levar em conta o tempo de natação que tenho e por tudo aquilo que trabalhei para chegar até aqui. Fiquei contente com minha performance, mas quero melhorar ainda mais para chegar em 2020 (em Tóquio) com chances reais de brigar por um lugar no pódio. O atleta de alto rendimento trabalha sempre para melhorar seu desempenho e sua marca.
Além dos 100m peito, você garantiu índices para disputar os 50 e 100m nado livre. Porém, nestas provas, você não obteve classificação para final. Que análise você faz de seu desempenho nestas duas provas?
Entrei no paralímpico nadando 50 e 100m livre. Na eliminatória dos 50m, terminei em décimo lugar na classificação geral. Nos 100m livre, como juntaram as categorias dos deficientes visuais, tivemos mais competidores e alcancei o 15º lugar. Conheço muito bem e sei do que sou capaz. São duas provas das quais gosto muito, e vou trabalhar firme para melhorar meu desempenho e evoluir.
A realização dos Jogos no Rio contribuiu para as pessoas conhecerem as diversas modalidades e valorizar o empenho do atleta deficiente no esporte?
Foi uma surpresa muito grande da perspectiva que tive das pessoas que foram assistir. Muitas pessoas compraram ingressos para ajudar o mundo paralímpico e o nosso projeto. Lá, eles foram brindados primeiro pela performance dos atletas, e segundo, pelos fatores superação e experiência de vida dos atletas. Em contato com as pessoas, muitas delas diziam que não acompanhavam o universo paralímpico por falta de divulgação e não por simples desinteresse. Os jogos do Rio vão deixar esse legado, a partir de agora, muitas pessoas passarão a acompanhar mais o esporte paralímpico e seus atletas. Queremos contar sempre com essa energia positiva a nosso favor.
Em sua opinião, o que falta para melhorar a inclusão no esporte?
A veiculação sem dúvida é a ferramenta fundamental. Mais gente assistindo nossas competições, mais pessoas vão apoiar, conhecer sobre esse universo e praticar o esporte. Sempre vai ter gente para incentivar, criar projetos e direcionar o deficiente para prática esportiva. Basta ele ter o interesse, conhecer um pouco das categorias e seguir em frente, pois, com certeza, com muito empenho e dedicação, certamente em uma das modalidades, o deficiente vai trilhar seu caminho.
Como foi seu contato com a natação? Antes disso, você já praticava alguma outra modalidade?
Eu fazia curso de música no Jardim Paulistano, na Casa de Assistência para Deficiente Visual. Até que um dia, um amigo perguntou se eu sabia nadar e se gostaria de fazer um teste. Disse que sabia e que gostava de nadar no rancho do meu pai. Logo nos primeiros dias, o professor Inaldo Wirz viu um potencial em mim. Daí passei a treinar duas vezes na semana, depois três, até que a natação tomou todo meu tempo. Hoje posso dizer que vivo da natação.
Você perdeu a visão com 8 anos de idade. Como foi lidar com essa situação tão jovem?
Foi estranho pelo fato de eu não saber o que estava acontecendo. É uma doença genética. Conforme vai progredindo, ela se torna mais agressiva e é progressiva até provocar a perda da visão. De férias da escola, me deparei assistindo televisão cada vez mais próximo da tela. Na volta da escola, só conseguia enxergar a lousa quando sentava na primeira fileira. Em um bate papo com minha irmã, ela foi me explicando, e entendi que tinha a mesma deficiência dela. Procuro ver o lado positivo. Graças a Deus não corro o risco de perder a visão total (Guilherme tem 10% da visão) e mesmo com pouca visão consigo me locomover sozinho. Para nadar é mais fácil, pois é só pular na piscina e ficar entre as raias.
Você é um exemplo de superação, força e talento. De que maneira o esporte ajudou a superar os limites impostos pela deficiência?
O esporte mudou minha vida num todo, até na maneira de agir e de me comunicar. Antes eu era muito tímido, mas hoje dou até palestras em escolas e, também, em empresas, para gestores que vão trabalhar com pessoas portadoras com deficiência. Isso mudou muito meu jeito de encarar a vida e até mesmo de me programar. Minha carreira vem dando certo, porque busco sempre pensar lá na frente. Penso, “como Guilherme de daqui cinco anos gostaria que eu fizesse hoje?”. A partir daí vou me planejando em busca de minhas metas pessoais.
A Paralimpíada terminou no domingo passado. Em 2020, a competição será realizada em Tóquio, no Japão. A sua próxima meta é estar presente no país asiático e conquistar uma medalha?
Com certeza. Vou usar uma estratégia de focar em cada competição. No fim deste ano, vou participar da disputa do Nacional, vou trabalhar e focar os 50m livre e descansar dos treinamentos dos 100m peito, para poupar um pouco o joelho e a virilha. No começo do ano tem o Mundial de Natação, e vamos treinar muito para melhorar nossa marca. É no trabalho do dia a dia que vou conseguir chegar aos Jogos de Tóquio. Vou pensar competição a competição e atingir o ápice para disputar novamente uma Paralimpíada e brigar por medalha.
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