Nós vamos continuar comendo farinha


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Fordlândia é um distrito localizado no estado do Pará. Na década de 1930,  quando os americanos quiseram impor aos trabalhadores da borracha a cultura norte-americana, sobretudo no estilo de alimentação pautada em enlatados, e por mais estereotipado que soe, em hambúrguer, estes homens que trabalhavam com látex se revoltaram. Historiadores sabem, antropólogos sabem, e o homem que sente na pele seus hábitos massacrados também sabe: não se impõe uma cultura sobre outra ignorando sua existência. Portanto, a ideia do hambúrguer poderia ser sedutora, porém, os trabalhadores queriam continuar comendo farinha de mandioca.

Bauman cita a liquidez do prazer da sociedade contemporânea, resumidamente, homem que é muito frágil, intolerante ao lidar com o outro, e tem seus valores pautados em suas conquistas através do trabalho. Seja mais competitivo e terá o melhor emprego, trabalhe mais e seja afortunado, gaste horas estudando para um concurso e se não ocupar o pódio você não se esforçou o suficiente: este é o perfil da sociedade atual. E o ócio ou as atividades praticadas e dedicadas totalmente ao prazer são uma alternativa de escape da angústia e do medo por não confiar no outro, que é encarado como seu eterno concorrente.
 
Pensando em tudo isso, certa vez eu estava aproveitando meu ócio deitada com um amigo no tapete de minha casa. Então, confesso que um pouco fora de contexto, propus um jogo: “Flávio, imagine que você é uma banana”. Ele expandiu o sorriso no rosto esperando a próxima frase, estão tive a liberdade que precisava para continuar: “Você é uma banana sendo descascada. A primeira tira de casca são as bases e valores religiosos ocidentais que você teve durante toda infância e adolescência. A segunda tira de casca que sai de você é tudo que você aprendeu na escola, desde o que estava escrito nas cartilhas sobre a URSS até o modo de organização que sua professora do pré propôs. Então, você está ficando quase nu.” Ele expandiu ainda mais o sorriso de forma que eu pudesse continuar: “Pense que a terceira parte da casca é tudo o que você  aprendeu direcionado ao mercado de trabalho, esqueça todos estes valores, esqueça o que te ensinaram sobre ser regrado, moral, competitivo, e então o que sobrou de você? Você consegue visualizar a banana sem casca?” Então, ele rapidamente, respondeu: “Bel, eu não sei”.
 
Confesso que esperava muito mais, e minha frustração fez com que eu permanecesse quieta pensando naquele vazio. Talvez seja esta a angústia que Bauman cita, ou que Schopenhauer gosta de falar. Os laços cotidianos são extremamente frágeis, paradoxalmente numa sociedade feita de… pessoas! E os prazeres reais são feitos pela idealização do final de semana longe do trabalho, e até mesmo as fórmulas direcionadas ao escape cotidiano frustram, como diria meu amigo Rafael: “A gente rala a semana inteira, e depois ainda tem que passar por isso na novela!”. Desconheço se o homem pode ser realmente livre  através de práticas alternativas relacionadas à natureza, ou meditando, isso é o que as revistas me dizem, a solução parece ser uma fórmula pouco resolvida dentro de nós mesmos diante das práticas cotidianas que nos cegam. Mas ainda gosto de me apegar ao exemplo de Fordlândia. Então, da maneira que for: continuem comendo farinha.

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