Eis que entramos em nova estação, aquela que pode desvelar em sutilezas o mistério do ato criador. Basta atentar ao redor, abrir os olhos, acurar ouvidos, respirar também com a alma. Plantas que permaneciam apenas enfolhadas logo vão nos surpreender com flores que desabrocharão da noite para o dia. A semente lançada há tanto tempo na terra e tida como morta vai se abrir em passe de mágica: exibirá as folhinhas verdes despertadas de sua profunda latência dentro da cápsula que as guardou por meses. Perfumes se evolarão atraindo homens, aves e insetos. Animais domésticos irão se agitar de forma incomum, como se tomados de súbita euforia por algo que só eles percebem na rutilância do ar. E pássaros meio ensandecidos poderão até perder o rumo de seus ninhos, conforme pude atestar ontem.
Foi assim. De repente, um dos beija-flores que se alimentam do pólen das flores de meu jardim perdeu-se no ar, vapt! , entrou por porta de vidro aberta e, vupt, em tuc-tucs nervosos se pôs a bater desorientado o bico longo e a cabeça mínima no teto e nas paredes da sala. Com receio de que sucumbisse por conta dos fortes impactos, entrei numa dança esdrúxula – primeiro com uma vassoura, depois com o espanador, até que logrei conduzir aquela leveza emplumada para fora e ela ganhou a brisa morna da tarde que caía. Foi então que, acompanhando seu volteio, olhei o céu, vi a bola de ouro incandescente a oeste e me lembrei de que estes entardeceres espetaculares dos últimos dias se repetirão ainda muitas vezes como signos do novo tempo. Há de haver tempo para apreciá-los.
Por um desses fenômenos a que chamamos associação de ideias, o dourado da tarde, o amarelo das flores e o ar translúcido conduziram meu pensamento à Alegoria da Primavera, que Sandro Boticelli pintou no final do século XV. Têmpera sobre madeira, é a obra mais visitada por quem vai à Galeria Uffizi, em Florença. O renascentista inspirou-se nas odes de Poliziano; nos Faustos de Ovídio; no De rerum natura de Tito Lucrécio. Ou, trocando em miúdos, na versão romana da mitologia grega, aquele mundo de fantasia onde até hoje bebemos beleza e erotismo.
O quadro nos mostra Vênus destacada num bosque de laranjeiras. Seu filho Eros atira flechas com olhos vendados. Zéfiro, o vento que respinga orvalho sobre as planícies, persegue a ninfa Clóris, que vai ter seu nome mudado para Flora a fim de zelar por todas as flores do mundo. Do lado esquerdo deste retrato mítico, as Três Graças (Aflaia, Tália e Eufrosina ) dançam. Reconhecem-se no conjunto algumas figuras importantes da Florença da época, como Catarina Sforza ( a Graça da direita), que o público do Netflix viu na série Os Bórgia; Simoneta Vespucci (a Vênus), sobrinha do célebre navegador Américo Vespucci; Lorenzo de Medici (Mercúrio, na extrema esquerda), marido de Simoneta . Desde 1482, quando foi concluída, a obra já foi vista por milhares que se quedam extasiados diante da composição onde imperam leveza, vigor, harmonia e vitalidade.
É interessante observar que em algum momento de suas vidas muitos artistas tenham elegido a primavera como tema, despertando nossa fé em renascimentos e renovações. Depois de Boticelli resgato lembranças de Vivaldi e a primeira parte de sua Quatro Estações; de Stravinsky e a coreografia da Sagração à Primavera; de Florbela Espanca e sua condição poética de concentrar em poucos versos uma esperançosa metáfora da vida: “Há uma primavera em cada vida:/ é preciso cantá-la assim florida/ Pois se Deus nos deu voz foi para cantar!/ E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada/ que seja a minha noite uma alvorada/ que me saiba perder para me encontrar.” Na prosa, me vem ao espírito nossa luminosa Cecília Meirelles que ergueu o motivo em crônica lírica de imorredouras imagens plásticas: “Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.” Na MPB, relembro Paulo Soledade, que ao sair de um hospital onde recebera diagnóstico de doença grave, compôs os versos tocantes de canção gravada por nomes expressivos da música brasileira: “Vê, estão voltando as flores/ Vê, nesta manhã tão linda/ Vê, como é bonita a vida/ Vê, há esperança ainda// Vê, as nuvens vão passando/ Vê, um novo céu se abrindo/ Vê, o sol iluminando/ Por onde nós vamos indo...”
(E como esquecer os Bashôs que do outro lado do mundo constroem com extrema delicadeza os hai -cais que na tradição oriental enfatizam a força da estação das flores e sua relação com a vida humana?)
Todos os que se voltam para as primaveras e as transformam em arte nos convidam a refletir sobre o longo tempo de elaboração interna que preexiste à explosão de cores, formas, aromas e sons que vão surpreender nossos sentidos. Alcançar essa compreensão é habilitar-se a um aprendizado- o de esperar pelo que não vemos mas está em contínuo processo a favor da vida. Representa também gesto de paciente humildade diante do mistério de toda existência.