A Flor Do Meu Segredo


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Filme de Almodóvar, que será apresentado hoje no anfiteatro do Centro Médico de Franca, nos mostra como todos podemos ter segredos, das mais variadas formas
Filme de Almodóvar, que será apresentado hoje no anfiteatro do Centro Médico de Franca, nos mostra como todos podemos ter segredos, das mais variadas formas
Este é mais um dos filmes geniais de Almodóvar, em que podemos observar sua capacidade de tomar como foco principal a mulher em seus diversos aspectos, e em profundidade os sentimentos da personagem principal, Leo. Grande conhecedor da alma feminina, o que se observa em todos os seus filmes, aqui neste, com a câmera íntima de Leo e nem tanto dos outros personagens que com ela se relacionam, ele nos mostra sua capacidade de expressar a dor do abandono. Através de Leo que é também Amanda Gris, escritora de romances “cor-de-rosa”, Almodóvar nos aponta para a possibilidade de uma mulher com tanta facilidade de escrever ao mesmo tempo ter dificuldades de encarar a realidade. Leo está entregue profundamente a seu marido, sente-se dependente dele, e ao mesmo tempo, apesar de ser profissional de sucesso, desconhece a si mesma, e as suas potencialidades. Rejeitada por este homem, entrega-se à dor que de tão grande parece ser física. Este é um filme sobre a dor da perda de um amor, porém, Almodóvar vai além e nos revela a dor de quem parece não ter conseguido encontrar em si mesma a força para viver só, e esta condição é que parece levá-la à dependência exasperada de um marido áspero, rude e que já não se mostra um companheiro de fato. A dor da solidão é algo que todos conhecemos, ou procuramos evitar conhecer, porém o estar só é constitutivo do ser. Ser deixada por alguém a quem se ama é algo que nos aproxima da nossa condição de sermos só. O Outro é outro, não é parte de nós, independentemente de nosso desejo.
 
Neste filme Almodóvar nos mostra como todos podemos ter segredos, das mais variadas formas: Leo guarda um segredo de seus leitores, e se esconde atrás de seu pseudônimo Amanda Gris. No entanto, é dentro de si que guarda algo mais importante que aflora neste momento de abandono: precisa voltar atrás, revolver suas memórias mais profundas e, tendo a mãe junto a si, repensar e revisitar sua própria história.
 
Quem na verdade é Leo? Durante grande parte do filme ela traz em seu olhar, em sua maneira de existir, certo estado de ausência de si mesma, exibido em sua forma de comportar-se. Ela é forte, mas não se percebe com a força que carrega. Ela tem consciência de que seu casamento já não existe, contudo tenta mantê-lo a todo custo. Seu desconhecimento de si e sua crença na dependência do marido para existir, a faz acreditar-se frágil e desamparada sem ele a seu lado. Estes conflitos que ela experimenta, tiram lhe a condição de continuar a escrever as histórias com finais felizes, e a aproximam de escritoras como Virgínia Woolf, Dorothy Parker e Djuna Barnes, entre outras, questionadoras da condição de submissão feminina. Passa a procurar meios para escrever o que realmente sente e pensa, e para isto começa a criticar seus próprios escritos “água com açúcar” no jornal El País, e escreve um romance com características opostas ao que se habituara. Abre espaço para si mesma, para seu lado forte, corajoso, lutador, e é a partir deste movimento que sua transformação começa. É interessante como Almodóvar nos aponta para a utilização da nossa própria condição mental como meio para recuperação da força e coragem para enfrentar perdas e lutos, que sempre fazem parte de nossas vidas, e darmos novos rumos a elas. 
 
Nossa sociedade luta ainda hoje por questões relativas ao poder ser feminino sem estar sujeito ao poder e autoridade do masculino. Afinal, não nos habita traços tanto de um quanto de outro? Não somos em alguns momentos passivos e em outros ativos?
 
A mulher Leo, criada por Almodóvar, é a filha que ouve da própria mãe, que “mulher sem marido é como vaca sem badalo: perde seu rumo. ” Mas, este genial diretor, que conta que sempre se rebelou e diverte-se em transgredir o que viveu em sua vila de infância, procurando o contrário daquilo, conta que sua mãe vestiu luto dos 3 anos até sua gestação, e diz: “apesar da negridão do vestido da minha mãe, germinava dentro dela a vingança contra o preto: eu, alguém cuja vida está determinada pela cor e se exprime através do seu excesso. ” Desta forma aparece em seu filme: se Leo parecia portar luto durante grande parte do filme, a cor da qual ela se veste ao final é o vermelho, da vida que brota em suas inúmeras possibilidades para ela.
 
A música em seus variados estilos, como as cores, é parte constitutiva da expressão das emoções dos personagens em Almodóvar. Desde boleros mexicanos e espanhóis, a Miles Davis ou Stravinsky, as melodias constroem algo das relações dos personagens consigo mesmos ou com os outros. Solea, um rico solo de Miles Davis faz parte de um momento importante neste filme, em uma dança flamenca de incrível expressividade.
 
Vamos juntos assistir ao filme, e somarmos nossas possibilidades de sonhar para comentarmos o humano em sua sensibilidade profunda, como nos proporciona Almodóvar? 
 
Estaremos lá neste 17 de setembro, a partir das 14h30, esperando por vocês, no anfiteatro do Centro Médico de Franca.

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