Chegou a hora da jararaca chorar


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Em março passado, depois de ter sido conduzido coercitivamente pela Polícia Federal para depor, o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva fez um discurso raivoso. Atacou os inimigos de sempre (oposição e imprensa), como de praxe e esbravejou: “se quiseram matar a jararaca, não bateram na cabeça. Bateram no rabo, e a jararaca está viva como sempre esteve”, disse na ocasião. Ontem, mais uma vez o ex-presidente voltou a se manifestar, em resposta à denúncia do MPF (Ministério Público Federal) contra ele e sua esposa Marisa Letícia por crimes de corrupção. Ao contrário de março, a jararaca sumiu. Posando como vítima, Lula voltou a criticar aqueles que elegeu como “inimigos” e comparou-se a Jesus Cristo (“só Jesus Cristo ganha de mim”), traçando o mesmo roteiro já conhecido por quem acompanha seus discursos desde o mensalão.
 
Apontado pelo MPF como chefe do megaesquema de corrupção desvendado pela Operação Lava Jato, Lula discursou ontem cercado de aliados: e, ainda que tenha falado por mais de uma hora, não emitiu uma explicação para as graves denúncias que pesam contra ele. Lula abriu o pronunciamento dizendo que não falava como político, mas como cidadão indignado. Mentiu. Sua fala foi apenas política: sobraram ataques ao MP e à imprensa. O petista também reforçou a intenção de se lançar candidato em 2018: “a história mal começou. Alguns pensam que terminou. E ainda vou viver muito. Por isso estou me preparando”. Ao longo do discurso, Lula falou aos seus: ressaltou os feitos do Partido dos Trabalhadores, chamou de “seus” os alunos do Prouni e reforçou o discurso que compara o impeachment de Dilma Rousseff a um golpe.
 
Embora tenha afirmado que não pretendia fazer de seu pronunciamento um “show de pirotecnia”, em referência à apresentação da denúncia contra ele pelo procurador Deltan Dallagnol, Lula foi Lula: chorou, contou histórias e atacou adversários. E acrescentou: ‘provem uma corrupção minha e eu irei a pé para a delegacia’. A fala de Lula foi recheada de esquetes típicos do ex-presidente, como histórias envolvendo líderes mundiais e passagens que ressaltam sua origem pobre. “Esqueceu-se” dos companheiros de longa data presos, como o ex-ministro José Dirceu, e José Carlos Bumlai, condenado ontem pela participação no esquema. A jararaca agora está praticamente sem saída, já que Léo Pinheiro, da OAS, promete contar tudo a respeito do tríplex do Guarujá e o sítio de Atibaia, que Lula garante não serem dele, além dos diretores da Odebrecht, autorizados pelos superiores a apresentar sua versão da participação no esquema, inclusive com uma série de provas que podem privar o ex-presidente da liberdade.
 
 
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