Meu Pai


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É evidente que no curso natural da vida, o normal é que os filhos devam sobreviver aos pais. Essa é a lógica. Mas quando os pais nos deixam, temos a sensação de que perdemos os nossos alicerces. É como se o tronco da árvore se deslocasse das raízes.
 
Perdi a minha mãe no início da década de noventa. Agora foi a vez de me despedir do meu pai Luiz. 
 
Ele lutava já há algum tempo contra os males próprios de um nonagenário. Já não víamos mais nele o tradicional bom humor, o otimismo e a vontade permanente de viver e servir.
 
A doença implacável o consumiu física e psicologicamente. Assim, surpreendentemente, ele já não mais se emocionava com as vitórias do Corinthians nem se agastava com as derrotas. Tal proceder, há algum tempo, era inimaginável.
 
O corpo debilitado clamava pelo descanso. Porém, o espírito resistia bravamente. 
 
Nós, seus familiares, passamos a viver o inevitável conflito entre a razão e o coração.
 
A razão pedia a nossa resignação. O coração, ao contrário, para que envidássemos esforços para mantê-lo em nosso convívio um pouco mais.
 
Venceu o coração! Fizemos tudo o que podíamos. No entanto não há como lutar contra os desígnios do Criador. A hora chegou.
 
Registro no entanto que ele cumpriu fidedignamente a tarefa que cabe a todo pai. 
 
Desdobrou-se juntamente com minha mãe para que os três filhos tivessem sólida formação moral e educação de qualidade. Certamente deixou feliz o Criador.
 
Termino transcrevendo mensagem postada pela Vera, sua esposa após a viuvez dele. Ela se fez presente até o instante derradeiro.
 
O texto dela retrata o sentimento de todos: “Luiz: você se foi. O seu corpo desistiu da sua alma. Todos que amam você deixaram de ter o privilégio da sua companhia, mas entre nós você se mantém presente através do amor e da saudade”.
 
 
Setímio Salerno Miguel
Advogado Empresarial e Professor da Faculdade de Direito de Franca.

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