Djalma Donizete Batista tem 53 anos. Vinte e três deles dedicados à Polícia Civil. Desde que se tornou delegado, trabalhou na capital paulista e nas cidades de Pirassununga, Buritizal, Cristais Paulista e Itirapuã. Também respondeu por diversos distritos policiais de Franca e pela DDM (Delegacia de Defesa da Mulher) e é delegado-assistente do GOE (Grupo de Operações Especiais).
Ele está à frente da Dise (Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes) de Franca há três anos e foi o delegado responsável pelas investigações que culminaram na maior apreensão de maconha na história da Polícia Civil de Franca, há 15 dias. Na ocasião, quatro francanos e um paulistano foram presos.
Na última semana, ele recebeu a reportagem do Comércio para falar sobre a apreensão, a importância da contribuição da sociedade, as recentes apreensões no Estado do Mato Grosso do Sul, cujas drogas seriam descarregadas em Franca, e sobre o desafio de comandar uma delegacia especializada que busca combater o tráfico e o crime organizado.
Três de seus 23 anos como delegado são dedicados à Dise (Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes). O senhor já lidou com diversas situações neste período. Há um perfil específico dos traficantes pegos?
A droga está disseminada e presente em todos os cantos da sociedade. Não há um perfil específico do traficante. É genérico e temos de todas as idades e situações econômicas: desde o menos favorecido até empresários e aqueles com dinheiro. Já chegamos a apreender pré-adolescentes e tivemos situações de crianças e pessoas bem mais velhas envolvidas com o tráfico.
Por que o consumo de drogas e o envolvimento com o tráfico estão cada vez maiores? Há alguma relação com a crise e do desemprego que assolam o País?
Não vejo dessa forma. Penso que, quando o dependente químico está desempregado, fica mais difícil de conseguir a droga. Isso pode, é claro, desencadear outros crimes, como roubos e furtos. Mas não o tráfico. O aumento desse delito acontece porque há uma desagregação da família e da sociedade em um todo, algo que influencia de forma direta no aumento. Em alguns casos, as pessoas entram no mundo das drogas pela curiosidade e chegam ao ponto de tornarem-se viciadas e ficam doentes devido à dependência química. Com isso, constantemente, travamos uma grande luta para cuidar dos usuários e de combater o tráfico.
Houve alguma investigação que mais o desafiou, na Dise ou em cidades pelas quais o senhor já é responsável?
O desafio é diário. Não há um caso especifico e isolado. Sempre procuramos, nas investigações e trabalhos, a excelência naquilo que almejamos, para ao final, termos o prazer e satisfação de ter cumprido nosso papel perante a sociedade. Todas as vezes que vamos investigar, seja um crime de pequeno potencial ou uma infração que possa causar muita repercussão, tentamos fazer o melhor dentro de nossas possibilidades e enfrentamos todos desafios para que possamos suplantá-los da melhor maneira possível.
A Dise, assim como toda a Polícia Civil, conta com um efetivo aquém das necessidades para tentar combater o tráfico. O que fazem para compensar essa defasagem de profissionais e continuar apreendendo drogas em Franca e região?
Aqui em Franca, temos, sim, problemas com a defasagem de pessoal, porém temos que nos desdobrar para supri-la e tentamos não sofrer tanto com essa defasagem, principalmente porque quem trabalha na cidade, gosta daqui e se desdobra para dar conta do recado. Além do mais, esses profissionais têm raízes, filhos e parentes na cidade e buscam uma Franca melhor para todos. Não podemos esmorecer ou lamentar por termos um efetivo aquém do que precisamos. Temos de manter em mente que precisamos fazer o melhor trabalho possível para diminuir a ação de traficantes. Quando há o trabalho em equipe e união, é possível alcançar esse objetivo. Choramingar pelo número inferior de policiais não adianta. O crime continuará nas ruas e quem sofrerá as conseqüências será a população.
Neste ano, a delegacia especializada em combater o tráfico de drogas fez diversas apreensões. A maior de sua história foi há duas semanas, em uma chácara na rodovia Felipe Calixto. Como foi o trabalho de investigação e quais cuidados tiveram para obter sucesso na apreensão de 780 quilos de maconha?
Nossa equipe não mede esforços para cumprir com o dever a nós incumbido. A dedicação de todos da Dise foi crucial para conseguirmos êxito na apreensão dos 780 quilos de maconha antes de serem distribuídos em Franca. Foi uma investigação bem realizada, em que os policiais civis que estavam na linha de frente abriram mão de seus momentos de lazer e de estarem com a família durante dias para alcançar esse objetivo e acompanhar cada passo dos traficantes (quatro francanos e um paulistano acabaram presos na operação da delegacia especializada). Estávamos muito bem preparados para surpreendê-los, pois sabíamos o caminho que percorreriam e a forma como distribuiriam a droga pelos diversos pontos de tráfico de Franca. E conseguimos pegá-los.
Desde maio deste ano, diversas apreensões de drogas que seriam descarregadas em biqueiras de Franca têm acontecido na região Centro-Oeste do Brasil. A maioria no Estado do Mato Grosso do Sul e culminaram na prisão de francanos e de moradores de cidades vizinhas, como Cássia e Passos (MG). Mais de 1.600 quilos de maconha foram impedidos de chegar à cidade. Franca se tornou um pólo do tráfico?
Creio que é mais um modismo dos presos que uma condição propriamente dita. Quando há uma detenção de um francano, especula-se que a droga viria diretamente para cá de países como Paraguai, Bolívia e até Venezuela. Em alguns casos, realmente aconteceria isso. Estávamos monitorando algumas dessas pessoas e tínhamos informações de suas ações e se não fossem presos onde foram, mais cedo ou mais tarde iríamos surpreendê-los. Mas não acredito que todas as drogas apreendidas seriam efetivamente descarregadas aqui na cidade. É uma fantasia que se cria porque Franca cresceu demais, é conhecida e tem muitos usuários. Há uma grande quantidade de dependentes, disso não temos dúvidas, mas denominá-la um pólo por conta disso, não.
Mesmo quando o tráfico está diante dos olhos da população, muitos relatam medo de fazer denúncias, ainda que de forma anônima. Quais mecanismos a Polícia Civil usa para garantir a segurança dos denunciantes?
Muitas pessoas temem denunciar por pensar que podem ser descobertas. Há o medo de represálias por parte dos traficantes. Gostaria de dizer que essas pessoas não correm esse risco, pois todas as denúncias são anônimas. Eu não busco saber o nome e dados de quem está nos ajudando e contribuindo com a sociedade. Ninguém vai rastrear nem descobrir. Tudo o que pedimos é que não sejam feitas denúncias infundadas. O importante é retirar o traficante de nosso meio e impedir que a comercialização de drogas ilícitas continue. Para isso, há o disque-denúncia, no 197, o telefone da Dise (3724-3551) e o site da Polícia Civil. Sempre protegemos e protegeremos aqueles que nos ajudam a fazer o bem vencer o mal. É assim que encaro a luta contra o tráfico de drogas e procuramos vencê-lo.
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