Drogados por celulares


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De repente, não mais que de repente, como diria o poeta, pode ser que não haja mais solução para você; aliás, para nós todos. Continuo observador. Em meus exercícios de convivência humana, continuo especializando poder de observação gestual. Ministrei, honrado, palestra sobre Expressão Verbal e Gestual a estudantes de Direito da Unifeg (Centro Educacional de Guaxupé - MG), a convite da escola. Eram quase cem jovens de olhares atentos, dispostos a entender complexos segredos da comunicação interpessoal, já que passarão a vida profissional que escolheram, escrevendo muito... e falando mais ainda. As grades curriculares das escolas de Direito do Brasil não privilegiam prática de Oratória, especialmente da Retórica. Pior: relegam ao limbo o conhecimento da Linguagem Gestual. As mensagens do corpo são mais de 90% do poder da expressão humana, e validam — ou não — o poder da mensagem verbalizada. 
 
Há um universo comunicacional desconhecido lá fora, mas não conhecemos seus códigos. Quem o domina, constrói comunicação persuasiva, eficiente e eficaz. Tenho auxiliado interessados em desbravarem esse universo e dele extraírem conhecimentos fantásticos. Agradeço a confiança do pró-reitor André Mello, daquela respeitada escola, pelo convite. Quebramos lá, alguns paradigmas da linguagem formal, mas, a julgar pelos olhares curiosos, sei que também chamamos atenção para o potencial deste conhecimento novo. 
 
A fonte de informação mais utilizada pelos que lá estavam? Celulares, a onipresente possibilidade de saber tudo, sobre tudo, em qualquer tempo, sem qualquer esforço. Próprio deste tempo. Jornais, revistas, livros? Passado. O tema tenderia a benefícios e malefícios do uso quase exclusivo do smartphone, mas aquele não era o momento. Sai de lá decidido a buscar melhoria de compreensão sobre essa ‘febre’. 
 
É assustadora, e é planetária. Não tem a ver com cultura, raça, credo, cor. Mais de 50% dos usuários de telefones móveis demonstram sinais de escravidão à tecnologia. Em alguns países, já são ‘doentes’ atendidos pela saúde pública. Quer saber se você, que me lê, está nessa? Aqui, um resumo do que descobri: 1 - Você me lê, mas o telefone está ao alcance da mão? 2 - Dorme perto do telefone? 3 - Não o dispensa um dia sequer? 4 - Esqueceu em casa e, desesperado, volta para pegar? 5 - Carrega a bateria várias vezes para o aparelho não falhar? 6 - Se a bateria pifa, corre atrás do carregador como se fosse necessidade fisiológica? Ainda não é o fim. Há salvação. 
 
Continuo: 7 - Não sabe o que seria de você se o perdesse? 8 - Leva ao banheiro? 9 - Para o que estiver fazendo para ver se ‘ainda’ funciona? 10 - Em encontro social, privilegia o telefone, não as pessoas? 11 - Tem certeza que o aparelho ‘vibrou’, quando não ‘vibrou’? 12 - Verifica o telefone antes de dormir, e faz de novo, primeira ação ao acordar? Se é seu caso, sinto. Você está viciado. Para receber ajuda, tem que reconhecer que precisa.
 
O Delirium tremens vem a seguir: 13 - Sai de férias e carrega o telefone até no mergulho? 14 - Consulta chamadas perdidas, textos, e-mails e Whatsapp e se desespera por não ter respondido? 15 - O telefone fica na mão, não no bolso ou bolsa? 16 - Vai ao aparelho quando tem problema de difícil solução? 17 - Escolhe o que vai vestir e põe o telefone sobre a roupa quando se troca? 18 - Permanece ao telefone quando vê televisão ou está no cinema? 19 - Onde se pede desligamento do aparelho, você não desliga, deixa no ‘vibrar’? 20 - Responde mensagens, mesmo fora de data? 21 - Não deixa o telefone quando se alimenta? Não percebe que o alimento esfriou, mastiga e engole automaticamente? Sim, você se tornou drogadito. Seu caso é patológico. Assustador saber que 52% dos humanos, hoje, respondem ‘sim’ a todas as situações. Significa um quase fim da essência humana e da consciência crítica. Oratória, retórica, gestual? O que é isso?
 
 
Luiz Neto
jornalista, editor de Opinião - luizneto@comerciodafranca.com.br

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