Uma noite que deveria ser lembrada pela alegria de reunir a família ficou marcada pela tragédia. Há 18 anos, a família Silva se envolveu em um terrível acidente na rodovia Ronan Rocha. Na batida entre um Ford Escort e uma BMW, morreram os serviços-gerais Luciano Carmo da Silva, de 25 anos, e Liomério Ribeiro de Paula, 28. E foi assim que a saga de outras vítimas teve início.
O passeio era da casa da família Silva, no Recanto Elimar I, até uma sorveteria das imediações. Dentro do Escort, estavam ainda a dona de casa Rita de Cássia Silva e Silva, hoje com 38 anos, Lucas Carmo da Silva, 19, mulher e filho de Luciano, respectivamente. De acompanhantes, estavam Liomério e a noiva e irmã de Luciano, a sapateira Maria Aparecida de Carvalho, 40, além de sua filha, Paola Cristina Silva, 22. Na BMW, estava o advogado Paulo Humberto Fernandes Bizerra, 45.
Toda a família sofreu ferimentos. Maria foi a que menos se feriu. Paola ficou 31 dias internada no CTI (Centro de Terapia Intensivo) da Santa Casa com o pescoço trincado, as duas pernas e os dois braços quebrados. Rita ficou em estado grave e, por meses, permaneceu internada. Ao ter alta médica, não pôde sair da cama por mais de 90 dias. Até hoje, carrega no corpo sequelas e dores da trágica noite. “Perdi o chão, pois não foi só a morte do meu marido. Meus ferimentos trazem complicações até hoje. Minha última cirurgia foi há apenas três anos e logo precisarei de outra. Fiquei 15 desses anos tentando me recuperar. Perdi cinco centímetros de uma das pernas por erro médico, pois ele colocou a platina invertida, fiz inúmeros procedimentos e ainda preciso de mais intervenções, já que corro o risco de perder o movimento de uma perna”, disse.
Lucas também sofreu em decorrência do acidente. Traumatismo craniano, fratura facial, edema cerebral e outros problemas acometeram o jovem que, na época do acidente, tinha apenas um ano e estava no colo dos pais. “Não pude conhecer meu pai, crescer ao lado dele. Não tive essa figura tão importante e vejo o responsável levando uma vida tranqüila, como se nada tivesse acontecido. E se fosse com a família dele?”, indagou, em tom emocionado, enquanto observava uma foto em que o pai o erguia para o alto e sorria para a câmera.
O acidente
No dia 21 de agosto de 1998, a família fazia o sentido Jardim Aeroporto ao Recanto Elimar, no Escort, quando viu a pista ser invadida na contramão pela BMW do advogado Paulo Bizerra. Na época do acidente, os depoimentos das vítimas, de uma testemunha, e o laudo de peritos do IC (Instituto de Criminalística) constataram que ele tentou ultrapassar um VW Santana no sentido oposto, o que desencadeou a tragédia.
Luciano morreu no local. O motorista, Liomério, horas depois, na Santa Casa. Já Rita, que estava atrás com o marido, a sobrinha e o filho no colo, ficou presa nas ferragens e, assim como Lucas e Paola, foi levada em estado grave ao hospital. Bizerra, condutor da BMW, teve escoriações na testa e fratura em um dos dedos da mão.
O processo
Desde o dia 8 de setembro de 1999, um processo em decorrência do acidente de trânsito corre na Justiça. Na ocasião, Rita entrou com um pedido de indenização por danos morais e materiais.
Em sentença proferida em 2008, Bizerra foi condenado a pagar R$ 300 mil por danos morais, pensão mensal à família até o ano em que Luciano completaria 65 anos, e indenização de danos materiais para Lucas até os 25 anos. Mas Rita diz que, até hoje, não recebeu um centavo sequer da indenização, pois Bizerra recorreu da decisão. “Essa demora mostra que, para ele, é como se duas pessoas não estivessem enterradas e suas famílias mortas em vida, com tantos estragos e dificuldades. Meu filho passou por muitas privações por causa dele e ainda cresceu sem o pai. Quero justiça”, disse.
Procurado pelo Comércio, o advogado afirmou que recorreu da sentença por não ser culpado pelo acidente. “Minha consciência está tranquila. Não tenho esse sentimento de culpa e não tenho nada a declarar sobre esse assunto. Não diz respeito a ninguém. Só saiba que houve um erro no processo e o caso está na Justiça”, disse.
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