Competir em esgrima, natação, ciclismo, arremesso de peso, lançamento de dardo e praticar canoagem, vela, handball, rugby, tênis de quadra, tênis de mesa e basquete soaria como uma previsão absurda para ser feita no dia 22 de outubro de 2012 em relação ao destino da então professora de inglês Danielle Nobile. Na ocasião, a hoje paraesportista de Ribeirão Preto, se encontrava em uma UTI, tetraplégica, após um acidente de carro sofrido a caminho do trabalho.
“Não era um dia normal, porque acordei extremamente feliz numa segunda-feira!”, disse ela, divertida. Um descuido ao volante, para conferir a hora, mudou toda a sua trajetória. A princípio, muitos imaginaram uma tragédia sem tamanho, mas Danielle, não. De acordo com ela, o pensamento de “por quê comigo?” nunca teve espaço em sua mente, que começou a trabalhar desde o início para reabilitar o próprio corpo. Com essa força de vontade, retomou os movimentos dos membros superiores, a força do tronco e o movimento de uma das pernas. Conquistou diversas medalhas no esporte e tornou-se a primeira mulher cadeirante triatleta do Brasil. “Mas meu objetivo principal ainda é voltar a andar”, disse.
Em entrevista ao Comércio, Dani - que esteve em Franca a convite do Ciesp, no último dia 25 - falou sobre sua recuperação e sobre o cenário paraesportivo brasileiro. Confira os principais trechos da entrevista.
Como começou sua história com o esporte?
Há 10 anos comecei a observar como estava a saúde de meus pais, que são sedentários e têm uma alimentação toda errada. Decidi que aquela não seria a vida que eu escolheria pra mim e resolvi cuidar da alimentação e fazer atividade física. Entrei na academia, voltei pra natação. Uns 2 anos depois, comecei a correr na esteira. Depois, um amigo me convidou para uma corrida. Tivemos 15 dias pra treinar para os 5 km e, quando passei a linha de chegada pela primeira vez, percebi que eu queria fazer aquilo pelo resto da minha vida!
E você passou a levar a corrida mais a sério, desde então?
Sim. Comecei a fazer provas de 5 km e 10 km. Depois, veio a Meia Maratona Internacional do Rio. Decidi que iria fazê-la e comecei a treinar pra ela sozinha. Depois dessa prova, passei por alguns professores de corrida até encontrar o Rodrigo, que era meu treinador na época do acidente. Eu realmente adorava correr, adorava ir pra academia, adorava as aulas de spinning.
Como era sua rotina antes do acidente?
Eu era professora. Minha vida era trabalhar o dia inteiro e treinar depois do trabalho. Já levava minhas marmitas, minha roupa e os tênis e ia direto pra academia. Fazia de tudo pra ter uma rotina saudável que incluísse meus treinos. Não abria mão deles, mesmo tendo que trabalhar, cuidar da casa, lavar, cozinhar...
Como começou o seu dia 22 de outubro de 2012?
Não era um dia normal, porque eu acordei extremamente feliz numa segunda-feira! (risos). No sábado anterior, havia corrido 29 km dos 75 km da prova Bertioga-Maresias em trio, com duas das minhas comadres. Estava feliz. Demos risada, nos superamos e nos surpreendemos juntas. Foi maravilhoso! Domingo: praia com o pessoal. Na segunda, dei meu ‘booommm diiiaaaa’ no Facebook, me organizei, dei tchau pros meus avós, eu morava com eles, e fui trabalhar.
O que você se lembra do momento em que o acidente aconteceu?
Fiz algo que nunca fazia: guardei o celular na bolsa. Eu não tinha rádio no carro e sempre deixava o celular ali tocando música mas, nesse dia, fui cantando alegre e feliz. Achei que a estrada estava muito cheia de carros. Fui olhar a hora no relógio de pulso e perdi o controle do carro. Se tinha algo na estrada que fez o carro escorregar, não vi. Se quebrou algo no carro, não sei. Só sei que fui parar na grama e, dali, fui bater na mureta de concreto que dividia as pistas. Entrei no liquidificador. Muito barulho e eu só via terra e céu, grama e céu. E sentia o vento no meu rosto. Fiquei consciente o tempo todo e, quando socorrida, passei os telefones dos meus avós, dos meus pais e do trabalho, pra avisar que eu ia chegar atrasada! Mal sabia eu que não voltaria mais pra escola e para os meus alunos.
Sobre o seu resgate, ficou alguma lembrança?
O resgate chegou rápido. Eu não conseguia desligar o carro pros bombeiros abrirem a porta e me wirarem de lá. Não conseguia tirar o cinto de segurança. Achava que era só cansaço de tanto chacoalhar, mas já estava tetraplégica. Quando o bombeiro pediu pra eu olhar se tinha algo prendendo meus pés, eu me olhei, sem mexer a cabeça. Não tinha nenhum corte no corpo. Nenhum osso quebrado. Mas ele perguntou se eu conseguia sair do carro sozinha. Eu não conseguia me mexer. A ficha caiu. Tive uma lesão medular na altura da C7, é a sétima vértebra do pescoço. O osso da coluna explodiu e comprimiu minha medula. Fiquei com todas as funções neurológicas, musculares, os movimentos, tudo comprometido, do pescoço pra baixo.
Como você encarou as primeiras notícias sobre seu estado de saúde e como foi sua adaptação?
O primeiro pensamento que tinha todos os dias era que eu ia voltar a correr. E disse isso pro médico. Na verdade, ninguém chegou e me disse que eu estaria numa cadeira de rodas. A ficha caiu ainda dentro do carro. Eu não me mexia, puxa! Mas, me lembro que, quando o médico pediu licença pra cortar minha calcinha, ainda na sala de emergência, senti a tesoura no meu quadril. Então, pensei: “nem tudo está perdido”. Esse segundo foi uma das maiores alegrias da minha vida. A adaptação pra vida nova foi mundo novo pra mim, pra minha família e amigos. Voltei a morar com meus pais, dependia deles pra tudo: comer, beber água, fazer minhas necessidades, ler, ver tv... Conseguir escovar os dentes, segurar o garfo e comer sozinha, segurar a caneta, escrever meu nome, me maquiar, cada coisa uma vitória. Também precisei aprender a viver na cadeira de rodas. Meus pais improvisaram um quarto no escritório e mudaram a altura das prateleiras pra que eu conseguisse pegar as coisas da cadeira.
E como foi o processo interno de adaptação?
Tentei encarar com alegria. Quando fui usar a cadeira pelas primeiras vezes em casa, falava que era carrinho de bate-bate. Não adiantava chorar ou me descabelar. Claro que era difícil depender dos outros quando você está com sede ou fome. Às vezes, bem no começo, eu ficava meio impotente, mas, apesar de todas as perdas e mudanças, não me lembro de passar por essa fase de negação, nem de ficar questionando “por quê comigo?”. Me lembro de não querer falar com a psicóloga do hospital e chegaram a pensar que eu estava em negação. Mas era um momento meu e novo e eu não queria dividir com uma desconhecida. Simples assim! Preferi acreditar na cura, lá na frente. Eu só enxergava lá na frente.
Como foi seu retorno ao esporte?
O primeiro esporte que comecei depois do acidente foi a natação. Comecei a entrar na piscina com meu pai, cheia de espaguetes (flutuadores feitos de polietileno, em formato de tubos). Depois, fui pro Hospital Sarah Kubitschek, em Brasília, fazer a reabilitação e, lá, um educador físico me colocou, pela primeira vez, numa handbike e comecei a desejar esse equipamento mais que dólar! Em abril de 2014, fiz minha primeira meia maratona após o acidente, em São Paulo. Fui com uma adaptação de handbike emprestada. Ali, meus amigos de corrida fizeram uma vaquinha e me deram uma hand de presente. Ela chegou em julho. Em agosto, peguei meu primeiro pódio na meia maratona Golden Four. Eu já nadava, já tinha a handbike. Mas pro triathlon, ainda faltava a cadeira de corrida. No meio de 2015, a cidade de Taubaté me emprestou a cadeira deles e eu pude fazer minha primeira prova de paratriahtlon. Três anos depois do acidente. Não parei mais. Me tornei a primeira mulher cadeirante triatleta do Brasil e fui campeã brasileira em 2015.
Depois dessa etapa, ficou mais fácil encontrar equipamentos, profissionais e estrutura para praticar esporte de uma forma adaptada às suas necessidades?
Até hoje não consegui estrutura adequada. Contei muito com meus amigos, fiz vaquinha online. Consegui bolsa pra natação e musculação na Companhia Athletica e um casal de amigos me deu um rolo de treinamento, pra transformar a handbike numa bicicleta ergométrica, mas não tenho carro pra levá-la pra treinar na rua. Além disso, não há locais seguros pra treinarmos. Só treino em casa. Os cadeirantes não têm nenhum apoio. Há poucas prefeituras com programas de treinamento paratletismo. Ribeirão não tem nada pra nenhum esporte. Não temos apoio nenhum ou quase nenhum do governo. E quando aparece uma empresa que quer ajudar, ficamos extremamente felizes. Estou em constante busca por patrocínio. Deixei de fazer várias provas importantes por falta de dinheiro.
A Paralimpíada vai começar dia 7 de setembro. Você vê diferença entre investimentos e divulgação da competição em relação à Olimpíada?
Total diferença! A Paralimpíada não vai passar na TV . As emissoras desmontaram seus estúdios na Vila Olímpica quando a Olimpíada acabou, pois não se interessam em transmitir a Paralimpíada. O governo só se lembra de nós quando há medalhas de ouro. Onde está a ajuda para chegarmos até lá? Infelizmente nunca aparece. No Brasil, a falta de incentivo é bem pior que em outros países, pois lá fora há centros de treinamento. Aqui, temos que pagar tudo do nosso bolso: suplemento, alimentação, nutricionista, fisioterapeuta esportivo para tratar as contraturas. Não dá pra pagar tudo isso!
O que poderia ser melhor, neste ponto?
Precisam mudar o modo como nos enxergam. Somos atletas! Somos pessoas normais! Não somos coitadinhos. Trazemos mais medalhas que os atletas “convencionais”. É preciso começar um programa de verdade de incentivo ao esporte.
A Vogue Brasil lançou uma campanha em prol das Paralimpíada que gerou polêmica. Os atores Cléo Pires e Paulinho Vilhena tiveram suas imagens mescladas com a de paratletas brasileiros. Cléo ficou sem o braço e Paulinho sem a perna. Qual a sua opinião sobre a campanha?
Não gostei nem um pouco! Não vejo espírito olímpico nos atores escolhidos. Aliás, Cléo Pires fez um vídeo chamando de hipócrita quem não gostou da campanha. Isso não é espírito olímpico.
Na palestra que fez em Franca, você disse que seu propósito principal é voltar a andar e, surpreendendo a todos, movimentou uma das pernas. Como vão os planos para isso?
Infelizmente, não temos como saber se minha perna esquerda vai voltar a mexer, nem se meu tronco vai voltar a ter equilíbrio novamente. Não dá pra abrir a medula e olhar lá dentro. Tive uma lesão parcial, mas não sabemos quais “fios” foram cortados nem por quais movimentos ou funções fisiológicas e neurológicas eles são responsáveis. Pode ser que eu volte a andar daqui um ano, daqui 10 anos, ou que não melhore mais nada além do que melhorei. O que tenho que fazer é não desistir nunca.
O que essa experiência de vida ensinou a você?
Com certeza meus valores mudaram. Vejo a vida de uma outra forma. Vi a morte de perto e Deus me deu outra chance. Dou mais valor aos meus pai, aos meus amigos. E tento estar com eles sempre que posso. Dou mais valor ao amor e não tenho vergonha de demonstrar. Dou mais valor às pequenas coisas, aos momentos. A gente nunca sabe quando é a última vez que você está fazendo determinada coisa, que está naquele lugar ou com aquela pessoa. Hoje viajo mais, passeio mais e faço menos contas. Aprendi também que posso ficar dura, mas que dinheiro nenhum vale mais que uma boa lembrança. E eu to cheia de lembranças boas.
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