O silêncio me acordou perto de três horas. E foi imperativo:
- Ouça.
Obediente, ouvi ausências tantas: a do irritante alarme do carro ou da loja; a do ronco do motor da motocicleta ou do ônibus; a da sirene preocupante da ambulância rasgando a madrugada e as ruas; a do latido rouco do cachorro querendo proteger o barraco, os trastes do seu dono.
Obediente, ouvi com nitidez a música de cada ausência.
Ouvi os passos firmes de minha mãe, percorrendo o quarto de paredes tão próximas, trazendo sua mão até minha testa, medindo:
- A febre está passando.
Passou a moléstia, passaram as feridas, fecharam-se as cicatrizes - também tantas.
Quando o sol preencheu todas as frestas e inundou o quarto, voltei a ouvir a música de todos os dias. A música da vida.
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