A síndrome do vice


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O vice é um golpista, usurpador do poder! Estamos cansados de ouvir isso, especialmente depois que a presidente Dilma foi afastada e o vice, Temer, assumiu. Já foi dito em 1992, quando o vice Itamar Franco assumiu. A reação, na época, foi menor. O então presidente Fernando Collor praticamente não tinha partido político, base parlamentar e nem apoio popular e, por isso mesmo, o impeachment foi mais rápido. Reservadas proporções, a relação entre chefe do Executivo e seu vice é delicado. Maioria das vezes, termina mal, principalmente quando o titular sofre revés.
 
Durante o período democrático 1946-64, o vice (presidente, governador e prefeito) era eleito separadamente. Era comum elegerem-se chefes do Executivo de um partido e o vice, de outro, inclusive adversários políticos. O exemplo mais marcante foi de João Goulart, que com campanha própria, elegeu-se vice de Juscelino e de Jânio, e a este sucedeu. Logo depois de assumirem, os governos militares instituíram eleição indireta para presidente e governador e mantiveram diretas apenas as de prefeito, acoplando o vice-prefeito na mesma chapa. A partir de então, vice não precisou mais pedir voto para si, mas para o cabeça de chapa. Quando voltaram as diretas para governador e presidente da República, esse sistema foi mantido.
 
Muitos de nós já assistimos profundas crises entre prefeitos e governadores, e seus vices. Mesmo tendo o vice a obrigação constitucional de substituir o titular, é normalmente acusado conspirar pela desgraça do cabeça de chapa. Outra briga comum é pela interferência do vice nos assuntos do governo ou pelo interesse de se fazer sucessor. Repete-se, hoje, nacionalmente. A afastada é a presidente da República filiada a partido que luta para se manter em pé. Ao vice, Michel Temer, além das ofensas recebe, resta a tarefa de reparar enganos cometidos por aquela que, um dia, aceitou ser vice. A tese da conspiração e/ou golpe, não passa de impatriótica protelação contra país que tem pressa...
 
 
Dirceu Cardoso Gonçalves
Tenente, diretor da Associação de Assistência Social dos Policiais Militares de São Paulo

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