'Tenho total certeza de que vamos reagir', diz Hélio Rubens


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Atuando como comentarista do basquete masculino brasileiro na Olimpíada, o técnico francano Hélio Rubens Garcia mostrou indignação com a derrota para Argentina. ‘Fomos derrotados com um erro tático nosso e não mérito deles’
Atuando como comentarista do basquete masculino brasileiro na Olimpíada, o técnico francano Hélio Rubens Garcia mostrou indignação com a derrota para Argentina. ‘Fomos derrotados com um erro tático nosso e não mérito deles’
A Olimpíada do Rio 2016 se encerrou no último domingo, dia 21 agosto. O COB (Comitê Olímpico Brasileiro) estipulou como meta para o país a posição 10 do quadro de medalhas. O Brasil terminou na 13ª colocação, com 19 medalhas conquistadas (sete de ouro, seis de prata e seis de bronze). 
 
Durante 15 dias de evento esportivo, o torcedor brasileiro vibrou com o ouro inédito obtido pela seleção masculina de futebol. O primeiro lugar dos comandados de Bernardinho, no vôlei masculino de quadra. A conquista na vela da dupla feminina formada por Martine Grael e Kahena Kunze, e o voo dourado de Thiago Braz, no salto com vara. 
 
Para além da alegria e emoção vividas pelas conquistas fantásticas do Brasil, o país acumulou alguns fracassos em certas modalidades. Favorito em campo, o futebol feminino perdeu a chance de ir até a final com a derrota para a Suécia. Na disputa do bronze, o time de Marta foi superado pelo Canadá. Bicampeão olímpico, o vôlei feminino caiu nas quartas de final para uma surpreendente China. O basquete masculino não era apontado como favorito à conquista da medalha, mas contava com uma geração de talentos e de destaque na liga norte-americana (NBA). A seleção de Rubén Magnano decepcionou em quadra. O Brasil venceu apenas dois jogos e foi eliminado na primeira fase.
 
Lenda do basquete nacional, o francano Hélio Rubens Garcia acompanhou de perto e viu cada detalhe da campanha do time masculino nas Olimpíadas do Rio de Janeiro. O treinador foi convidado pelo canal SporTV para comentar sobre a modalidade no evento. Nessa trajetória como comentarista, Hélio Rubens teve que lidar com diferentes sentimentos ao longo da campanha da seleção brasileira de basquete. Da emoção que o levou às lágrimas, na vitória sobre a Espanha (pela segunda rodada). No final da partida, ao lado do narrador Roby Porto, chorou diante do emocionante triunfo sobre os espanhóis por 66 a 65. “Foi a vitória da emoção, do equilíbrio emocional. Isso é raro de acontecer e o Brasil mostrou personalidade. Isso nos dá uma força muito grande, dá uma sequência fantástica e é um prêmio para torcida brasileira, essa torcida maravilhosa que está presente no ginásio”, declarou o treinador com a voz embargada. Na estreia, o Brasil tinha sido derrotado pela Lituânia.
 
O resultado positivo gerou certo otimismo para o duelo contra Croácia, mas a seleção foi superada por 80 a 76. No confronto decisivo contra Argentina, o Brasil esteve no comando do jogo e perto da vitória, mas deixou o triunfo escapar com uma cesta de três pontos de Nocioni, faltando 3,9 segundos para o fim do jogo. Com o empate (85 a 85), a partida foi para prorrogação, com vitória argentina no segundo tempo-extra. 
 
“A derrota para Argentina resumo em duas palavras: frustração e decepção. Tínhamos a vitória em nossas mãos, mas fomos punidos com uma cesta de três pontos, por não termos feito falta no jogador argentino”, disse Rubens. A Argentina venceu por 111 a 107.
 
Pela última rodada, a seleção masculina venceu a Nigéria (86 a 69), mas acabou eliminada da competição com a derrota da própria Argentina para a Espanha. “Quando acontece um sentimento de frustração como esse, procuro levar para o lado de crescimento e reação. Tenho certeza que vamos reagir, pois temos valores aqui”, disse Hélio Rubens, em entrevista ao Comércio. Confira os principais trechos desta conversa.
 
A seleção brasileira de basquete foi eliminada na primeira fase das Olimpíadas. O que deu errado desta vez para nossa seleção?
O nível técnico é muito equilibrado. Existem diferenças, mas elas são muito pequenas, com exceção do time norte-americano, pois na grande maioria de todas as demais seleções, seus atletas atuam ou na NBA ou no basquetebol da Europa. Mas aquele jogo fatídico contra a Argentina acabou nos eliminando da competição, onde a vitória era certa. Houve um erro tático, pois não cometemos a falta que era necessária faltando poucos segundos para o fim do jogo. A Argentina aproveitou o momento para movimentar a bola e conseguiu empatar na cesta de três pontos. 
 
Essa derrota para Argentina, da forma como ocorreu, foi ainda mais dolorida para desclassificação do basquete masculino?
Foi muito dolorida. Estávamos com o jogo praticamente ganho. O sentimento foi de frustração e decepção, porque naquela situação que a Argentina estava com a posse de bola, mesmo que o Magnano não tenha falado em fazer a falta, os jogadores teriam que ter a iniciativa em cometer a falta (o adversário teria dois arremessos de lance livre e o Brasil ainda teria a posse da bola e com um ponto de vantagem). Da maneira como tudo ocorreu, foi muito frustrante, pois foi um erro tático da equipe e não mérito da Argentina.
 
Quais jogadores você destacaria positivamente nesta campanha brasileira nas Olimpíadas? Houve alguma decepção em relação ao desempenho de algum atleta?
Do Brasil, todos apresentaram mais ou menos no mesmo nível. Na realidade, o Brasil só não foi bem por causa de um erro tático, de uma falta de orientação. Qualquer outro time teria feito isso, eu na minha carreira cansei de fazer isso, mesmo que meu técnico não dissesse nada. E nossos jogadores, todos estão com experiência internacional e jogam em grandes times fora do país. 
 
Rubén Magnano foi demitido pela CBB (Confederação Brasileira de Basquete) no começo da semana. Qual avaliação você faz do trabalho dele nesta Olimpíada e durante todo o tempo em que esteve no cargo?
Até antes da Olimpíada, ele vinha fazendo um trabalho muito bom, tanto é que continuou no cargo. E, durante os jogos, o time não estava jogando mal, não. O Brasil teve uma vitória maravilhosa contra a Espanha, seleção que ficou entre os quatro primeiros colocados (medalha de bronze). Só que na sequência perdeu da Argentina, que é nosso mais tradicional adversário na América do Sul, um jogo praticamente ganho, e todos esses fatores criaram um clima de frustração grande. Como qualquer ser humano, ele cometeu um erro mortal de perder um jogo que estava ganho. Ele mesmo deve concordar com isso. 
 
Para substituir Magnano, você acredita que temos bons nomes dentro do nosso país para exercer a função ou seria melhor apostar em outro técnico estrangeiro para comandar a seleção?
Acho que tem que escolher um técnico brasileiro, pois não vejo tanta diferença de conhecimento, não. Conhecimento tático e técnico todos têm, os próprios jogadores têm e podem falar sobre um treinamento e jogo. O que faz o diferencial é o relacionamento, visando o objetivo a ser alcançado e a seriedade. Em minhas equipes, carregava o slogan “Treino é jogo e jogo é guerra”. Quando o jogador se condiciona a isso, seu desempenho será maior e isso é importante em relação ao comando. Agora, tem muito técnico que, para se manter no cargo e não ficar com jogadores insatisfeitos no time, começam a fazer média. Não é o caso de Magnano, pois sei que é um cara sério e treina forte. 
 
Qual treinador brasileiro estaria preparado para assumir este cargo?
Essa questão tem que ser muito bem analisada. Acredito que não seja exclusivamente por causa do resultado. Acho que têm que ser estudadas as últimas três temporadas, realizando pesquisas, trocando opiniões, pois todos eles se equivalem. São pequenos detalhes que farão a diferença entre um e outro, o cultivo da liderança, da autoconfiança e do relacionamento (técnico/jogador). Não posso citar nomes, pois não convivo com esses técnicos, vejo um ou outro. Para escolher o técnico da seleção, como não tem nenhuma competição no momento, acho que poderia a CBB aguardar um pouco para avaliar melhor e definir o nome. É difícil tomar uma atitude de momento, já que todos estamos frustrados por termos saído na primeira fase da Olimpíada. Acredito que não é o melhor momento.
 
Você viveu intensamente os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, trabalhando como comentarista de um canal televisivo. Desde o começo, de uma forma geral, existiu certa desconfiança em relação ao país na organização do maior evento esportivo. Em sua análise, o Brasil realizou uma Olimpíada digna?
Acho que foi muito mais do que esperado e de absoluto sucesso. Todas as arenas estavam lotadas, o nível técnico da competição foi muito bom, jogos de alto nível. Podemos dizer que o Brasil fez história, sim, com a realização dos Jogos Olímpicos no país.
 
O que esperar do basquete brasileiro para os próximos anos?
Acho que o Brasil, com a organização dos campeonatos estaduais, NBB, Sul-Americana, Liga das Américas, tem eventos que darão oportunidade para os jogadores crescerem taticamente e tecnicamente, além do comando técnico também. A eliminação prematura na primeira fase vai criar um clima de reavaliação no basquete brasileiro. A responsabilidade será ainda maior, ainda mais para escolha do novo treinador. Se fosse presidente da CBB reuniria todos os treinadores e dirigentes para avaliar e definir o escolhido. 

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