'São as palavras e a linguagem que nos tornam humanos'


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Prestes a lançar seu 6º livro, Pássara, Vanessa Maranha relembra sua trajetória na escrita e fala sobre prêmios adquiridos no percurso
Prestes a lançar seu 6º livro, Pássara, Vanessa Maranha relembra sua trajetória na escrita e fala sobre prêmios adquiridos no percurso
Professora de inglês, francês, jornalista (com anos de atuação neste Comércio), psicóloga, escritora. A trajetória profissional de Vanessa Maranha está intrinsicamente ligada ao universo das palavras e, conferindo a elas um estilo próprio, característico, tem conquistado público, participações e prêmios importantes do cenário literário nacional. 
 
Dos mais recentes, se destacam o Off Flip de Literatura, em 2012; o Ufes de Literatura (Universidade Federal do Espírito Santo), pelo livro de contos Quando não somos mais (EDUFES), em 2013, e o Barueri de Literatura 2013/2014 - com o volume de contos Oitocentos e sete dias (Multifoco). Além disso, foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2015 com o seu primeiro romance, contagem regressiva (Selo Off Flip). “Não escrevo pensando em prêmios, eles são consequências posteriores, bem vindas, claro, abrem portas”, afirma sobre a sequência de honrarias.
 
Nascida em São Caetano do Sul (SP), Vanessa veio para Franca aos 5 anos de idade com os pais: Aurélio e Silvânia Maranha, naturais de Franca. Foi por meio deles, a propósito, que ela se encantou pelo universo dos livros antes mesmo de poder lê-los. “Meus pais eram grandes leitores. A leitura era um valor, na nossa família. Era delicioso sair com o meu pai aos domingos para comprar fascículos semanais da Abril, coleções que livro a livro ele ia completando”, relembrou, com carinho.
 
No próximo dia 26, Vanessa lança seu 6º livro, Pássara (Editora Patuá). A coletânea de 21 contos, escritos no decorrer de três anos, fala sobre voos metafóricos e da posição da mulher. “Penso que o escritor capta o que está no ar, transmuda em ficção o que está em si, numa elaboração. A questão de gênero é o que mais me chamou no último ano. Ser mulher nesse mundo: como e o que significa isso”, disse. O lançamento será na Cultura Inglesa, às 19h30.
 
A palavra “pássara” conseguiu sintetizar sua proposta para o livro, pois remete ao voo, em sua simbologia, e ao feminino, em seu gênero. Como foi a escolha do título?
Pássara é o título do conto que pra mim é o mais forte e misterioso do livro, um conto que tangencia o complexo de Édipo numa medida mais latente. É o desabrochar de asas sufocadas, dentro do princípio feminino. Essa ideia tematiza todos os outros contos, numa mirada de voos. É uma palavra forte, pouco usual. No Nordeste, chamam de pássara as mulheres espalhafatosas. No meu livro, diz respeito à capacidade humana de voos metafóricos.
 
Pássara vem na sequência de seu romance de estreia, contagem regressiva. O retorno aos contos foi natural ou houve algum tipo de estranhamento?
No momento em que entreguei Pássara ao editor, finalizei o meu segundo romance, que lapidarei ao longo deste resto de ano. Como em contagem regressiva, em que me vieram os contos de Quando não somos mais, aconteceu com Pássara: no meio da escrita de um novo romance me vieram os contos. O romance é uma forma mais extensa e intensa. Os contos são espasmódicos. Estou amando escrever romances, mas os contos me vêm.
 
Quando e como seu interesse pela escrita foi despertado?
Antes mesmo de eu ser alfabetizada. Ficava encantada com as histórias maravilhosas que um livro pode conter. Na minha binária mente de criança, eu considerava o livro um objeto pequeno demais para abranger aquela magnitude toda; talvez imaginasse que o tamanho físico do livro devesse corresponder ao da história oferecida (!). Aos sete anos, quando li sozinha o primeiro livro, Alladin, eu me lembro de pensar: quero fazer algo assim.
 
Você é uma escritora prolífera. De que forma os textos chegam até você? 
Percebo que produzo bem no caos. A vida que eu levo, muita cheia de compromissos, não me permitiu ainda abrir uma brecha de tempo para construir uma rotina para a escrita, como fazem os escritores profissionais. O que tenho é um compromisso com a escrita, propondo-me a manter contato com aquilo que eu estiver escrevendo, ou seja, não importa a que horas e de que forma, não me permito perder contato com o livro por mais de dois dias, senão o texto vai embora, a atmosfera criada se rarefaz ou se perde radicalmente do seu propósito, ao menos comigo é assim. 
 
E você tem algum tipo de “ritual” para escrever?
Prefiro escrever de madrugada, sem telefone tocando, sem barulho na rua, sem elementos de distração, alguns, verdadeiros ladrões de energia. O banho já me trouxe arremates e construções poéticas interessantes, mas é no silêncio, com uma luz bem suave, indireta ou de abajur, que gosto de escrever, de preferência à mão, com caneta de ponta bem fina e folha pautada. A digitação posterior torna-se já uma reescrita. 
 
O que te motiva a escrever?
É mais um impulso. Vem quase sempre de um incômodo, tanto que nos períodos de latência, em que o texto fica preso na garganta, sem forma ainda, fico mal humorada, desconfortável. Quando estou assim, já sei que há um texto em mim a ser escrito. Agora, quanto à motivação, talvez seja mesmo a necessidade de expressão, o grande prazer de criar formas, de transgredir certos cânones, de ser crítica com mais liberdade. O desafio de me superar, sempre. Há um mistério aí.
 
Em seu primeiro romance, você decidiu dar ao personagem principal uma voz masculina. Em Pássara, o grito é feminino. Houve uma razão para essas escolhas?
Não houve escolha aí. Há uma espécie muito velada de autossugestão, bastante motivada pelo entorno. Os últimos dois anos têm sido sombrios no país e no mundo: o neoconservadorismo avançou perigosamente mostrando que questões que julgávamos já resolvidas, só estavam disfarçadas por um véu cínico de civilização, o politicamente correto, como por exemplo na questão da mulher e de gênero. Quando vem a perplexidade, sinto que preciso dizer algo sobre. Buscar uma resolução estética, um pequeno enquadramento, criar um microcosmo para desvelar a complexidade ou mesmo o ridículo da coisa. 
 
Que tipo de relação você tece com seus personagens? Eles vêm e vão com facilidade ou você costuma se apegar a eles?
Por um tempo eu me apego a eles, eventualmente penso que deveria ter lhes dado mais vida, mais acontecimentos, ter-lhes sido menos cruel ou mais gentil, mas, no geral, sou de fácil desapego, que voem, depois de escritos, são do mundo, são dos leitores.
 
Quais escritores mais te inspiram e de que forma?
Falo sempre na atualidade, porque os autores inspiradores vão e vêm, mas, sempre e esse ano mais, Shakespeare e Machado de Assis. A genialidade de ambos na construção psicológica dos seus personagens, o desenvolvimento dos temas, a capacidade de criar pensamento, de tocar nos afetos. Mas tenho sempre uma pequena multidão de autores, entre clássicos e contemporâneos, tomando conta do meu criado mudo. Elena Ferrante e Alice Munrocom têm me encantado atualmente. Mario Vargas Llosa com o seu Elogio à Madrasta, que só agora leio, me deixa de queixo caído. 
 
Como você enxerga a produção literária francana? 
É uma bela produção, teve seus momentos mais fervilhantes, na época do Grupo Veredas, com Luiz Cruz e sua prosa de cunho social articulando o movimento e o Caderno de Domingo, atual Nossas Letras (suplemento deste Comércio) que aliás, revelou muitos autores. A peculiaridade da literatura francana está na sua prosódia e regionalismo deliciosos e no memorialismo, certa nostalgia que atinge extensões líricas. Como faz Paulo Gimenes, entrelaçando música, história e poesia. Lúcia Helena Maniglia Brigagão, cronista de primeira grandeza, biógrafa idem. Matitaperê, de Everton de Paula, considero um primor. Os contos de Sonia Machiavelli, sobretudo os de Uma bolsa grená, sinestésicos, uma delicadeza referencial; os poemas de Regina Bastianíni, belos, singelos. A Noite dos Espantalhos e Parasitas, do Mauro Ferreira, é incrível; Janaína Leão com suas entradas transgressoras e luminosas; Téo Lopes trazia contos e crônicas singulares, bem como Hélio França e seu pai Josaphat Guimarães, o bom traçado. Jane Mahalem e Maria Luiza Salomão em tons ensaísticos, Lourdes Liporoni, Tânia Liporoni e Zelita Verzola pródigas na narrativa curta de viés filosófico. Cirlene de Pádua uma autora que transita bem no gênero infantil. Muita gente boa escrevendo bem, perdoem-me os que não citei aqui, fui me lembrando daqueles que mais publicam no Nossas Letras. 
 
E o que falta no cenário literário de Franca?
Franca é a cidade de minha escolha, adoro essa terra. Agora, não me agrada, não é do meu perfil ser convocada e aceitar a viver a reafirmação do si em si mesmo, algo da ordem de um olhar endógeno; isso é pessoal, sempre contornarei qualquer agrupamento que, em vez de libertar e estimular expansão, freia a tentativa de voo.Como no Mito da Caverna, de Platão. A literatura como território de alguma liberdade. Em alguns aspectos, por temor, por preconceito, talvez, as pessoas idealizam e fantasiam demais, para o bem e para o mal.
 
Ainda é muito difícil publicar um livro no Brasil?
As dificuldades de sempre giram em torno da entrada no universo dos grandes grupos editoriais, que priorizam bestsellers estrangeiros ou autores nacionais consagrados do passado e conferem um espaço reduzido aos contemporâneos. Nos EUA e Europa há um trabalho de marketing muito bem realizado em torno das obras. Aqui, as grandes livrarias chegam a ser fatores impeditivos, uma vez que cobram altas somas por destaque nos seus displays, não permitem cartazes ou, se os permitem, os valores do espaço são proibitivos. 
 
Como foi ter seu primeiro trabalho publicado? 
Foi bom e estranho, paradoxal. Queria publicar, mas não queria que ninguém lesse, era insegura, não sabia se aquilo era bom ou não. E, a princípio, não era mesmo. (O primeiro livro de Vanessa, Coisas da Vida, foi lançado em 1995, pela editora Ateniense).
 
A sensação ainda se repete?
Sim, eventualmente, mas melhorou muito com o ganho de autoconfiança e de conhecimento. No início, eu era mais intuitiva: gostava ou não, sem saber dizer porque. Hoje eu sei categorizar um texto, situá-lo literariamente. Mas, o grande lance da literatura mesmo é aquele momento, depois de digressivo, repetitivo e longo percurso em que você alcança o ponto da musicalidade e dos signos que parecem perfeitamente encaixados, mesmo que em estranhamento, você sabe que aquilo é bonito e significativo e chega a se perguntar posteriormente: ‘mas fui eu mesma quem escreveu isso?’
 
É possível eleger a obra que mais lhe trouxe satisfação em assinar?
Sempre a da vez, o autor tenta se superar a cada obra. Esse novo romance, título ainda a ser definido, eu considero melhor que o primeiro. Mas escrever romances é mágico, mais vigoroso, exige mais do autor, desafia, portanto, tem me trazido muita satisfação.
 
Você acredita que as palavras podem mudar o ser humano?
São as palavras e a linguagem que nos tornam humanos. Sem elas, sem significantes, sem significados, metáforas ou metonímias seríamos concretos, guturais, seríamos primatas.Sim, as palavras podem nos transformar e como psicóloga e escritora, meu lugar nesse mundo conflui na ideia da busca pela palavra que germine ou destrave o sentido em si. 

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