Ele tem nove passaportes, conhece 50 países e todos os estados do Brasil. Viajar e viver em constantes deslocamentos faz parte da vida de Ademir Sebastião Pedro de Souza desde que ele nasceu, há 72 anos. Esse filho de português com índio, sendo seu pai ferroviário, transformou o turismo em profissão.
O começo na atividade foi por acaso. Há 50 anos, Ademir iniciou a carreira alugando ônibus para levar romarias até Aparecida (SP). Se deu bem e foi contratado para trabalhar em uma empresa de fretamento. Após divergências com os patrões, decidiu abrir uma firma própria, que acaba de completar 40 anos de atividades, a Nena Viagens.
Foi no escritório da empresa, decorado por souvenirs comprados em diferentes partes do mundo, que Ademir Pedro recebeu o Comércio para falar de seu fascínio pelo turismo.
O que despertou no senhor a atração pelas viagens?
São duas motivações: primeiro, que sou filho de português com índio. Então, sou um andarilho nato. O índio era nômade e o português sempre teve o costume de sair pelos mares. É normal que eu tenha nascido com este desejo de viajar. Por outro lado, meu pai era ferroviário. Trabalhou na São Paulo e Minas e depois na Mogiana. Como tínhamos descontos de 75% nos passes, a gente viajava muito. Além disso, morei em vários lugares e a gente estava sempre se deslocando. A viagem faz parte de minha vida.
Como o ‘dom’ de viajante virou profissão?
Passei a ter uma dedicação exclusiva pelo turismo a partir de 1966. Eu era presidente da Congregação Mariana da Vila São Sebastião e resolvemos fazer uma romaria para a cidade de Aparecida. Foi um sucesso naquela época. Eu levei três ônibus. Como estava dando certo, continuei a fazer romarias nos anos seguintes.
O dono de uma empresa onde eu alugava os ônibus em Ribeirão Preto me convidou para trabalhar com eles em Franca. Aceitei na hora. Em 1968, foi fundada a Alzira Turismo e eu me tornei profissional lá, era funcionário. Em 1976, houve um desentendimento e nos separamos. Como eu não tinha emprego, fui obrigado a criar a minha própria empresa. No primeiro momento, foi a Ademir Turismo, que se transformou na Nena Viagens.
Calcula quantos países já conheceu?
São cerca de 50 países. Alguns deles, já visitei várias vezes. Sempre que vou à Europa e existe possibilidade, eu passo por Paris, na França. Atualmente, também estou gostando muito de Londres. A cidade teve um grande upgrade após as Olimpíadas de 2012.
Qual país o senhor foi mais vezes?
Eu acho que foi na França. Não sei ao certo, mas acredito que tenham sido mais de 30 de vezes. Na Inglaterra, foram umas dez vezes.
Mesmo indo tantas vezes a um mesmo lugar é possível ter experiências diferentes?
Sim. O turismo vai muito dos seus olhos. Cada vez que você viaja, o lugar se apresenta com dinâmica e aspecto diferentes. Depende de você e das características do lugar também. Sempre há uma novidade.
Qual é o lugar mais encantador que conheceu?
Com certeza, o Rio de Janeiro. A cidade é inigualável. É o lugar mais bonito que existe. Tem uma tipicidade própria: floresta, montanha e o mar, além da geografia maravilhosa. Em segundo lugar, diria Istambul, na Turquia. É um lugar muito bonito. Tem o Corno de Ouro, que é uma coisa linda, linda. O Canal de Bósforo, que é um dos cartões postais da cidade. O entardecer no lugar é uma coisa maravilhosa.
Qual o país mais estranho ou exótico que visitou?
A China. Para mim, lá tudo é estranho: a comida, o povo, a tipicidade. Depois, vêem os árabes e os mongóis. São lugares com características muito peculiares. Na China, tem o exotismo da culinária, que é totalmente diferenciada com escorpião, cobra, morcego frito.
Experimentou essas iguarias?
Não. Só experimentei a libélula frita. Os outros pratos, dispensei.
Tem algum lugar que se arrepende de ter visitado e que não pretende voltar?
Pelo o que me lembre, não. Voltaria em todos os lugares. No Egito, encontrei muitas dificuldades com a questão de higiene. Achei muito problemático. Os banheiros deixam muito a desejar. Isto também existe na Rússia e na Mongólia. Fui a lugares nesses países em que os banheiros eram duas tábuas com um buraco no meio, como uma fossa. É assim até hoje. O pessoal enche de flores para tentar dissipar o odor, mas é problemático.
Quais foram as viagens inesquecíveis?
Em 2001, fiz uma viagem com meu filho Gustavo para a Caminhada de Compostela. Foi inesquecível pela companhia dele, pela aventura e pela experiência de caminharmos 800 quilômetros no caminho de Compostela. Fiz este caminho por duas vezes. Em maio, fizemos pedalando de bicicleta. Também destaco a viagem que fiz pelo Orient Express, em novembro de 2014, e a volta ao mundo de trem, quando passamos por 13 países durante o mês de agosto do ano passado.
O senhor tem quantos passaportes?
Vamos contar. Não me lembro, não (abre a gaveta e faz a contagem). Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete aqui e mais um em casa. Não, não, pêra ai: achei mais um. São nove ao todo. Alguns foram preenchidos antes do prazo de validade vencer. Este aqui, por exemplo (exibe para a câmera), tem o visto americano, canadense, para Dubai e o chinês.
Tem alguma mania quando viaja? Gosta de comprar souvenir?
Mania, mania eu não tenho, mas gosto de comprar pins nos lugares que eu visito para afixar em chapéu. Alguns chapéus, nem posso mais usar de tão pesados que estão. Tenho um chapéu completo só com pins do Hard Rock Café. Tenho outro só de santuários católicos e um referente a Portugal. Meu consumismo é comprar coisas de viagem. Gosto de comprar chapéus, tenho mais de 30, blusas, tênis, sapatos e camisetas.
O senhor sempre viaja a trabalho ou também a lazer?
Depende da viagem. Normalmente, existe um mix. Mesmo que você vai apenas a laser, acaba trabalhando. De repente, a gente vê um hotel, uma estação ferroviária ou algo interessante e acaba indo visitar. Quando vou a trabalho, também consigo me desligar nas horas vagas. Sempre existe um laser.
A questão do terrorismo está atrapalhando o turismo? Os ataques, principalmente na França, estão amedrontando os turistas?
O problema existe, como temos no Brasil, como tem em Israel, na Palestina, no Egito, Europa e Estados Unidos. Se for olhar as estatísticas, é mínimo o número de turistas que sofreram atentados. São situações mais localizadas.Temos notícias de que na França o turismo já foi afetado em cerca de 10%. O pessoal fica temeroso. Pelo que eu saiba, nossos turistas nunca tiveram problemas. Em Israel, por exemplo, já fui nas estações de trem, andei por todos os lados onde há concentração de gente e nunca me aconteceu nada. No Rio de Janeiro, onde fui dezenas de vezes, nunca tive problema de roubo. Mas já fui roubado dentro do Hard Rock Café, em Copenhague (Dinamarca). Onde já se viu ser roubado em um país nórdico com elevado índice de segurança? A questão de segurança é muito relativa. Acredito que o turismo seja pouco afetado.
Conhece todo o Brasil?
Conheço relativamente bem quase todos os Estados, menos os antigos territórios, com exceção de Fernando de Noronha. Não conheço o Amapá, o Acre, Rondônia, nem Roraima.
O senhor sempre tem uma mala pronta?
Tenho. Se for preciso sair agora, em cinco minutos estou pronto. Tenho mais mochila do que mala. Para você ter uma ideia, tenho umas 30 mochilas. Para cada viagem, uso um tipo de mochila.
O que não pode faltar na sua bagagem?
Livro de oração ou Bíblia, livro de leitura, objetos de higiene pessoal e roupas confortáveis.
Qual orientação o senhor daria para quem vai viajar? O que não pode faltar?
Depende de pessoa para pessoa. Cada um tem suas exigências. Para nós, idosos, não pode faltar remédio senão vai dar problemas (risos). Itens de higiene são fundamentais, sapato confortável, pois sempre será preciso caminhar, chapéu, filtro solar e roupas adequadas. O brasileiro tem mania de exagerar na mala, o que é errado.
O senhor diz que é um andarilho nato. Já fez o Caminho da Fé por 18 vezes. Como define essa experiência?
A viagem a pé é a melhor viagem que você faz. Em segundo lugar, é a viagem pedalando. Em terceiro, eu diria que é a viagem de trem ou de ônibus. O Caminho da Fé começou em 2003, de Águas da Prata a Aparecida. Nos anos seguintes, foi sofrendo transformações e ganhou trechos a partir de Tambaú. Hoje tem ramais em Sertãozinho e Descalvado. O ponto final sempre é Aparecida. O Caminho da Fé é semelhante e organizado como o de Compostela.
O senhor tem o sonho de instalar um ponto de partida do Caminho da Fé em Franca...
Estamos lutando, eu, o padre Ricardo e o Gustavo para isso. Inclusive, temos uma comissão constituída. Franca já deu a resposta. Quando o Sidnei Rocha era prefeito, ele criou a lei. Estamos esperando Patrocínio Paulista, São Tomás de Aquino, Itamogi, São Sebastião do Paraíso e Monte Santo de Minas aprovarem para chegar até lá. Franca, hoje, é uma das cidades que mais mandam peregrinos para o Caminho da Fé.
Como define a atividade de viajar?
Sempre costumo citar Santo Agostinho: o mundo é um livro. Aquele que não viaja, fica sempre na mesma página. Viajar é você tomar conta do livro inteiro. Viajar é você descobrir o mundo diante dos seus olhos, sentindo as emoções, sentindo o sabor e sentindo as maravilhas das pessoas que você tem contato.
O senhor pretende viajar até quando?
Pretendo viajar até o último suspiro. Só não pretendo morrer em viagem porque dá muito trabalho. Meu objetivo é viajar até quando Deus achar que eu mereço.
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